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A recompensa

por cheia, em 16.10.20

Mazelas da guerra

 

Continuação

A recompensa

 

Passados 9 meses, estávamos, de novo, em Luanda

Quando chegámos, acompanhei o Capitão ao Quartel-General, onde nos aguardava um Brigadeiro

O Capitão fez-lhe continência e manteve-se em continência, enquanto ele falava, perguntava o que tinha sucedido ………..

O Capitão manteve-se quedo e mudo, até o Brigadeiro corresponder à continência

Como uma parte da tempestade já tinha passado, o Capitão justificou por que razão foi impossível controlar os condutores civis, tudo acabou em bem

Passámos alguns dias em Luanda, antes de seguirmos para os nossos novos destinos

Acabados os dias de férias em Luanda, saímos em direção ao novo paraíso, numa extensa coluna militar, desta vez, em direção ao Sul

Fomos distribuídos por quatro povoações. Ao meu pelotão coube a bonita Vila do Andulo, terra natal de Jonas Savimbi, líder da UNITA – União Nacional para a Independência Total de Angola

Não podíamos ter sido melhor recebidos, ainda não tínhamos autorização para sairmos das viaturas, já estas estavam rodeadas de civis, o inverso do que tinha acontecido no Norte

Ficámos instalados numa casa civil, nunca apagámos as luzes, porque a produção da barragem era superior ao consumo

Havia uma coabitação harmoniosa entre civis e militares. Eramos convidados para os bailaricos, aos sábados à tarde, na Sociedade Recreativa

O nosso mais famoso futebolista, que não pertencia ao meu pelotão, foi logo cobiçado por o clube de futebol, local. Mas havia um pequeno detalhe, não tinha concluído a quarta classe, tudo se resolveu com a conclusão e a sua inscrição na Federação

Fazíamos patrulhas ao nível de secção, numa das patrulhas vimos uma escola em funcionamento, construída em tijolo, muito arejada, não tinha janelas nem porta, a Professora foi muito amável para connosco, esforçou-se para que os alunos falassem em português, mas poucas palavras disseram

Numa outra patrulha encontrámos um comerciante, cuja camioneta estava atascada, e havia já umas boas horas que esperava que alguém passasse e o ajudasse. Com a ajuda de uma árvore, onde prendemos o guincho da nossa viatura, conseguimos que a camioneta voltasse a andar

Camaradas nossos, também em patrulha, foi-lhes pedido que transportassem uma grávida, cujo parto estava complicado, para uma Missão

Na povoação mais distante do nosso raio de ação, vivia um casal de madeirenses, que tinham um comércio, eram os únicos europeus da povoação. Gostavam muito das nossas visitas, pernoitávamos na casa deles, só nos pediam que lhes levássemos pão.

Um dia, quase ao fechar da loja, entrou uma senhora com um açafate cheio de grãos de café, pedindo que o pesassem.

Fiquei sem saber o verdadeiro objetivo, mas penso que quereria saber, quando trouxesse todo o café, os quilos que tinha a receber

Aquele casal comprava-lhes o que produziam ou pescavam e vendia-lhes o quisessem comprar, ainda lhes arranjavam alguns medicamentos. A povoação ficava perto do rio Quanza

Foram estes poucos e pequenos gestos de humanidade que, quanto a mim, deram alguma recompensação aos nossos sacrifícios

Tantas vidas perdidas, tantos recursos mal gastos, que ainda hoje estamos a sofrer as suas consequências

Aproximavam-se as férias, o mês de agosto na Metrópole, na companhia da filha e da mulher, depois de mais um ano sem as ver, o tempo parecia não passar

 Converter angulares em escudos era muito difícil, muitos queriam ter um pé-de-meia na Metrópole, podia-se converter 7.000,00 angulares em escudos, por cada viagem à Metrópole. Assim, abri a minha primeira conta bancária, no único Banco do Andulo, Banco Pinto & Sotto Mayor, que quando foi inaugurado, alguém conseguiu ler: “ branco, tinto e copo maior”, depositei 7.000 angulares e recebi 7.000,00 escudos, em Lisboa

À boleia do Andulo para Luanda, para apanhar o avião, para Lisboa.

Continua

 

 

 

 

 

 

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publicado às 07:37

Verão cinzento

por cheia, em 11.08.19

Verão cinzento

 

Há nuvens negras, neste agosto cinzento

Há quem tenha de trabalhar

Todos os dias, de sol a sol, para angariar o sustento

Há quem viva à conta do Orçamento

Que busque, lá fora, o que não tem cá dentro:

Espetadores, porque as praias têm estado entregues ao tempo

Que tenha forçado um evento

Para uma exibição contra o momento

Que exemplo!

A política deveria ser um exercício exemplar

Mas, tornou-se num espetáculo nojento

Muito pouco compatível com este tempo

Em que, muitos povos, correm de um lado para o outro

À procura de segurança, pão, casa, paz

À procura de um coração que os abrace

À procura de um sítio onde nasça a esperança.

 

José Silva Costa

 

 

 

 

 

 

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publicado às 17:26

Luar ao Sul

por cheia, em 30.07.18

Luar ao Sul

                        

Ceifeiras: papoilas ao vento a esvoaçar

Trigueiras, a perfumarem a planície

Cantam, para espantarem as dores

De corpo e faces tapadas, para enfrentarem o calor

Sob um sol escaldante, de foices em riste

Para desafiarem o vento levante

Quantas canseiras, para ver o pão nas eiras!

Mulheres determinadas, que cortam o sol com o regaço

Que sabem todo o circuito do pão:

Alqueivar, gradar, semear, mondar, ceifar, debulhar, limpar, moer, peneirar, amassar, tender,

O forno aquecer, para o pão cozer

Se soubessem, as voltas que a mão dá, até fazer do grão de trigo pão!

Não o estragariam, dando-lhe muita mais atenção

Há multidões de esfomeados, que nunca, o pão, verão

Acabada a ceifa, chega a adiafa, para suavizar o cansaço

Um dos trabalhos mais duros, que mulheres e homens

Enfrentaram, nos campos do Alentejo

Sob um sol ardente, de cortar a respiração!

 

 

José Silva Costa

 

 

 

 

 

 

 

 

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publicado às 21:34


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