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A Natureza

por cheia, em 14.10.21

Cumbre Vieja

Vulcão

 

Sonhos interrompidos

Vidas paradas

Lares queimados

Por um vulcão zangado

A mais bonita ilha: La Palma

Transformada num inferno

Meio século a dormir

Acordou estremunhado

Para matar tudo

Raivoso de lava

Não para de tudo ameaçar

Onde pode um sonho descansar?

Que não se levante um vento para o acordar

Ter de tudo abandonar

Para a vida salvar

O trabalho de uma vida entregue ao ar

Até que a lava o venha buscar

Ver o mar chorar

Por o fogo o queimar

Sem ar para respirar

O fumo a impedir os aviões de levantar

Rios de lava encosta abaixo

O desespero de um mar de gente

Impotente para lhe fazer frente.

 

José Silva Costa

 

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publicado às 08:18

Amor & guerra (16)

por cheia, em 26.04.21

Amor & guerra (16)

Quando chegaram a Santa Apolónia, em Lisboa, apanharam um táxi, e foram os quatro para o hospital, para, finalmente, verem como estava o Carlos

Assim que chegaram ao hospital, a Mequilina pediu ao plantão para falar com o enfermeiro

Disse-lhe que eram as visitas do soldado número 500, Carlos. Era a primeira visita, e que vinham acompanhados do filho, que ele ainda não conhecia, se poderia arranjar um sítio onde o pudessem ver, porque o menino não podia entrar na enfermaria

Foram encaminhados para uma salínha, onde esperaram pelo Carlos

Pouco depois trouxeram o Carlos, um maqueiro empurrava a cadeira de rodas

A mãe agarrou-se a ele, a chorar, a aperta-lo como se quisesse pegar-lhe ao colo

Ficaram minutos agarrados, sem dizerem palavra, até que ela lhe perguntou por que é que não andava, e ele respondeu-lhe que tinha sido ferido na perna esquerda

A seguir o pai abraçou-o e beijou-o, trocaram poucas palavras. Por último a Mequilina colocou-lhe o filho no colo, ficaram os três abraçados e a beijarem-se. O Carlos estava muito feliz por, finalmente, estar a abraçar o filho e a namorada. Aproveitou para lhe dizer, baixinho, que lhe tinham amputado, à perna esquerda, abaixo do joelho, e que os médicos lhe tinham garantido, que com uma prótese ficaria a andar bem

Carlos sugeriu-lhe que fosse mostrar o filho, aos antigos patrões dela, até podia ser que os deixassem lá dormir, para poder ir visita-lo, no dia seguinte, porque, ainda, tinham muito para conversar, e estariam mais à vontade, sem a presença dos pais dele

Terminada a visita, despediram-se e saíram. Cá fora, a Mequilina informou os futuros sogros, que não os acompanharia no regresso a Braga, porque ia visitar os seus antigos patrões

A Marina mostrou-se surpreendida, mas a Mequilina disse-lhe que tinha sido uma sugestão do Carlos, para poderem visita-lo no dia seguinte

Pela primeira vez despediram-se do neto, já estavam completamente embebecidos por terem um neto. Ao despedirem-se da Mequilina , prometeram verem-se em breve, queriam ver o neto crescer

Também chegou a hora da Bárbara ver o Firmino entrar-lhe pela porta dentro, com um bonito ramo de rosas, para lhe oferecer

Com os rostos banhados de felicidade, ficaram, tempo sem fim, a beijarem-se, com os corpos unidos, como se fosse só um

Antes que ela lhe perguntasse, ele apressou-se a explicar-lhe, quanto tinha sido difícil os pais aceitarem a sua decisão. Quanto à mobilidade, nem valia a pena falar, estradas esburacadas, minadas, troços só com escolta militar, dias e dias para fazer meia dúzia de quilómetros: um inferno!   

 

Continua

 

 

 

 

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publicado às 07:59

Amor & guerra (5)

por cheia, em 25.03.21

Amor & guerra (5)

A Companhia do Carlos já tinha sofrido várias emboscadas, acionado muitas minas: um inferno! Alguns mortos, muitos feridos, mas o Carlos saiu ileso.

Entretanto, a Miquelina já tinha tido o menino. Correu tudo bem, foi assistida pela mãe e uma vizinha.

Assim que pôde, a Miquelina escreveu para o namorado, informando-o do nascimento do filho, dizendo-lhe que era parecido com ele, pedindo-lhe para dizer que nome é que gostava de pôr ao filho, e assim que tivesse uma fotografia, enviar-lha-ia

 

A Barbara estava muito preocupa com o parto. Não havia médico, nem enfermeira, nem parteira. Não sabia a quem pedir ajuda, mas as empregadas sossegaram-na, dizendo que já tinha assistido algumas parturientes

O Carlos, quando recebeu a notícia de que era pai de um menino, deu pulos de contente, fazendo com que os camaradas pensassem que não estava bem, não cabia em si de contente

Mas, como há sempre quem não goste de ver ninguém feliz, um deles perguntou-lhe se tinha a certeza que o miúdo era filho dele

Carlos indignou-se, disse que tinha toda a confiança na Miquelina, e não falava mais sobre o assunto

Miquelina estava ansiosa por receber notícias do Carlos, era preciso registar o filho, e ela queria que fosse o pai a escolher o nome. Tinha-lhe escrito a dizer que não se importava que fosse Miguel, mas o nome que ele escolhesse, é que seria o nome do menino

Já tinha caído em desuso, serem os padrinhos a escolher o nome dos afilhados, que consoante o sexo, era o nome da madrinha ou do padrinho

Carlos estava envolvido numa grande operação, composta por três companhias, que tinham como missão fazer recuar os guerrilheiros para fora do território angolano, a Norte. Operação que poderia demorar mais de um mês, fazendo com que não pudesse responder à Miquelina.

 

Continua

 

 

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publicado às 08:00

Cinzas

por cheia, em 02.07.17

Cinzas

 

O verde transformou-se em negro

O sol espalhou o medo

As pessoas enfrentaram o desespero

O fogo engoliu-as

Tudo desapareceu

Até o céu morreu!

Só o fumo permaneceu

Agora, nem pessoas, nem casas, nem fábricas

Tudo ardeu

Ficou o desemprego

Não há sombras, nem sonhos, nem esperança

Nada permaneceu

Toda a Natureza cedeu

 

José Silva Costa

 

 

 

 

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publicado às 23:31


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