Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

socieadeperfeita


Segunda-feira, 30.07.18

Luar ao Sul

Luar ao Sul

                        

Ceifeiras: papoilas ao vento a esvoaçar

Trigueiras, a perfumarem a planície

Cantam, para espantarem as dores

De corpo e faces tapadas, para enfrentarem o calor

Sob um sol escaldante, de foices em riste

Para desafiarem o vento levante

Quantas canseiras, para ver o pão nas eiras!

Mulheres determinadas, que cortam o sol com o regaço

Que sabem todo o circuito do pão:

Alqueivar, gradar, semear, mondar, ceifar, debulhar, limpar, moer, peneirar, amassar, tender,

O forno aquecer, para o pão cozer

Se soubessem, as voltas que a mão dá, até fazer do grão de trigo pão!

Não o estragariam, dando-lhe muita mais atenção

Há multidões de esfomeados, que nunca, o pão, verão

Acabada a ceifa, chega a adiafa, para suavizar o cansaço

Um dos trabalhos mais duros, que mulheres e homens

Enfrentaram, nos campos do Alentejo

Sob um sol ardente, de cortar a respiração!

 

 

José Silva Costa

 

 

 

 

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por cheia às 21:34

Sábado, 30.04.16

Alentejo

Maio

Maio, mês de todas as flores e de todos os horrores

Das ceifeiras e das papoilas

Trigueiras ceifeiras, de rosto tapado, para se protegerem dos beijos do sol, das papoilas e das espigas

A ceifa parecia uma orquestra bem afinada, um espetáculo inesquecível

Um movimento com o céu parado: mãos, canudos e foices num movimento sincronizado

Formavam um harmonioso bailado, com as espigas a dançarem no ar abafado

Que tem por fim segar o trigo e coloca-lo no restolho, confortado

À espera de ir para a eira, para ser debulhado.

Ninguém mais verá a planície florida de moças e moços, papoilas e espigas douradas

Não. Não verão mais o mar de trigais, ondulando, pontuado, aqui e além, por papoilas vermelhas

Não. O Alentejo não será mais o celeiro de Portugal

Um sacrifício a que foi condenado

Mesmo que a terra gemesse e já nada desse

Gentes e terra foram condenadas, por não se submeterem

A uma ditadura odiada.

Foste libertado em Abril, mas floriste em Maio

Acabou a adiafa, gratificação que simbolizava o fim de um dos trabalhos mais penosos.

Corpos vergados ao sol escaldante, em movimentos de competição, para colherem o pão

Que bom que seria, que todos soubessem, quantas voltas das, até chegares à mesa!

 

 

José Silva Costa

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por cheia às 21:59


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Setembro 2018

D S T Q Q S S
1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
30

Posts mais comentados