Voltar ao topo | Alojamento: Blogs do SAPO
Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]
Outono
Nestes rudes tempos, indiferente à brutalidade, continuas a tua missão
Recolher as secas folhas, lavar as árvores, para receberem o inverno
Mas, as guerras, essas não param, continuam a alimentar o ódio
Os agiotas continuam a amontoar o dinheiro, vivem do seu cheiro
Tudo inútil, tudo sem futuro, tudo para criar fome, dor e morte
Nunca ouviram o puro choro do nascer de uma criança
A pedir, pão, paz, educação, habitação, futuro sem opressão
Mas, os donos do mundo não as ouvem
Só ouvem o telintar do ouro, como se isso fosse bom para o povo
Mais tarde ou mais cedo chega a chuva e o frio
Os migrantes dormem à porta da AIMA, no conforto do humanismo
Saboreando a nova política de acolhimento com dignidade
Dando um novo e bonito colorido à cidade
O Ministro bem os quer enganar, dizendo que podem utilizar o colo da Internet
Mas, eles o que querem é que lhes resolvam os problemas
Estão fartos de sistemas, da burocracia, da exigência de documentos, sem fim
Assim, preferem dormir nos braços da adorável AIMA, à espera de um milagre
Na confortável cama da discriminação da lei dos estrangeiros
Tão boa, para quem tem muito dinheiro, num país tão interesseiro.
José Silva Costa
DE AlTEMIRA FIZ UM RAMO
Este é o título de um dos livros, que o Senhor Francisco Carita Mata, autor dos blogs: https://aquem-tejo.blogs.sapo.pt e https://apeadeirodamata.blogs.sapo.pt, me ofereceu, o outro é a XXIII Antologia da Associação Portuguesa de Poetas, 2019, o que muito agradeço.
Uma obra feita de muitas joias, algumas muito antigas, um testemunho escrito, para que o passado chegue au futuro
Este livro preserva a alma de um povo, de uma região: do Alto Alentejo, onde o autor guarda os tesouros da sua terra: A Aldeia da Mata
Para aguçar o apetite e espevitar a curiosidade, transcrevo alguns trechos dos muitos tesouros que o livro, De Altemira Fiz um Ramo, encerra.
Quadras de Amor e Desamor
Enganos e Desenganos)
“ Todos me mandam cantar
Mas ninguém me dá dinheiro
Pensam que a minha garganta
É o fole de algum ferreiro.”
Quando eu era…
“Quando eu era pequenina
Usava fitas e laços
Agora que sou casada
Uso os meus filhos nos braços.”
“Quando eu era solteirinha/pequenina
Usava sapato branco
Agora que sou casada
Nem sapato nem tamanco”.
Cantigas de Oito Pontos
“Amor p´ ra toda a vida”
Sepultei minha tristeza
Na raiz do alecrim
Já não achas com certeza
Outro amor igual a mim.
Na palma da tua mão
Tá outra palma nascida
Se me souberes amar
Tens amor p´ ra toda a vida.”
Bem-haja, por preservar o nosso património
A nossa maior riqueza
São muitos séculos de arte e beleza
Num mundo globalizado, é ele que nos diferencia.
A lua-de-mel!
Sonhos longos planos
Mar salgado ondulado
Um beco apertado
Rio sombrio magoado
Luzes acesas sem telhado
Frio escorregadio molhado
Braços num abraço sufocado
Beijos num céu estrelado
Mãos a afagar um corpo suado
A lua a iluminá-los com cuidado
Um sono acordado
A sorrir em cada namorado
Um grito de alegria queimado
O sobrolho da rua arrepiado
O sol a subir ao sobrado
A prometer ficar para sempre acordado
Para que ninguém acorde gelado
Uma noite de juras de amor encantado
Duas vidas atadas por um lençol esticado
O amor no perfume deitado
Tudo o resto passou ao lado
Como se o mundo já tivesse acabado
Nem um ruido incomodado
O tempo ficou parado
Na areia as gaivotas ensaiavam um bailado
Tudo ficou alado
Voaram num voo imaginado
Aterraram nas nuvens de um dia ensombrado
Com um bonito penteado
O futuro para sempre enleado.
José Silva Costa
Bem-vindo outono
Chegaste nos braços da noite
Nas asas da lua cheia
Mal chegaste, escondeste o sol
Começaste a despir as árvores
Para que a primavera as vista de novo
Com a futura moda: a da Natureza!
Aquela que consegue combinar todas as cores
Todas as flores, com toda a harmonia
Como uma melodia: uma sifónia
Que nos embala todos os sentidos
Que nos transporta para o paraíso
Mas, quanto mais despes as árvores
Mais camadas de roupa visto
E quando te despedes e deixas-nos, ao inverno, entregues
Mais camadas de roupa visto
E a quantos mais invernos assisto
Mas camadas de roupa visto
É assim o outono da vida
Tão diferente do outono da Natureza!
Que todos os anos se despe
Para se voltar a vestir de beleza
De flores perfumadas
De novos, doces, frutos
De dias de lutos
De radiosos dias de sol
De radiosos dias de chuva
De novas vidas a darem vivas à vida!
José Silva Costa
Amor & guerra (40)
Frente a frente, os cinco: o pai, as mães e os filhos. Pela primeira vez estavam todos reunidos, na expetativa do que iria acontecer, tendo aceitado aquela reunião, para que soubessem a verdade, e, se possível, voltassem, de novo, a viver em paz
A Bárbara pediu para ser a primeira a falar, pediu desculpa a todos por não ter dito toda a verdade, porque queria que o Carlos sentisse o que tinha sofrido, por ter ficado com uma filha nos braços
Mas pior que criá-la, tinha sido, ter de a ouvir, todos os dias, a perguntar pelo pai, sem que tivesse uma resposta, para tantas e insistentes perguntas
Queria que soubessem que tinha sido ela a aliciar o Carlos, quando percebeu que o Capitão a queria tirar daquela cave, onde se tinha escondido, desde o assassínio dos pais, exigiu que mandasse um soldado para a acompanhar
O Capitão escolheu o Carlos para tentar convencê-la a sair daquele lugar. Tinha-se apaixonado, por ele, desde o primeiro dia em que o viu, na primeira visita que ele lhe fez, mas continuou a recusar-se a sair do buraco, porque continuava com medo de voltar às ruas, onde vira os corpos decapitados, pelos guerrilheiros
Com a continuação das visitas, foi dizendo, ao Carlos, quanto gostava dele, e que a sua companhia faria com que conseguisse dominar os medos, mas ele disse-lhe que não podia namorar com ela, porque já tinha namorada
Não desistiu, dizendo que a qualquer momento se podia mudar de namorada ou de namorado, e que não sairia daquele local, sem que, primeiro, tivessem relações sexuais, convencida de que se ficasse grávida, ele seria obrigado a casar com ela
O seu plano não deu resultado, porque a Companhia saiu da sua terra, antes de saber que estava grávida
Depois de revelar, a todos, o que tinha acontecido, pediu, mais uma vez, desculpa, dizendo que esperava ter provado que o Carlos não tinha tido culpa, e, por isso, merecia ser amado por todos
A Miquelina disse que, por ela, tudo voltaria ao que era antes de saber que o marido tinha uma filha, esperando continuar a ser muito feliz, na companhia do Carlos, que se devia orgulhar de, para além do bonito filho, ter também uma bonita filha
A Sara abraçou-se ao irmão a chorar de alegria, não conseguia esconder a felicidade de ter conseguido encontrar o pai, e de ter feito com que todos ficassem amigos
De seguida abraçou e beijou a Miquelina, a mãe e o pai. Não parava de chorar de alegria, fazendo com que o Miguel a apertasse nos seus braços, pedindo-lhe que não chorasse mais, porque tudo estava esclarecido e que tinham era de continuar, todos, a ser amigos.
Fim.
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.