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Amor & guerra (17)

por cheia, em 28.04.21

Amor & guerra (17)

O Firmino e a Bárbara decidiram viver juntos, não ambicionavam casar-se, queriam ser felizes e para isso não precisavam de papéis assinados

Tinham, era de tomar decisões sobre o seu futuro. O Firmino confessou-lhe que gostava de ter um filho ou uma filha dela. A Bárbara disse-lhe que também gostava de ter um bebé dele

Queriam vender a loja, quanto antes, porque a guerra não atava nem desatava. Quem é que sabia quando e como seria o seu fim?

Sempre com o rádio ligado, um meio de informação, que leva o som a todo o lado, para estar bem informada e ligada ao mundo

Sabia que mais tarde ou mais cedo, Portugal tinha de dar a independência às suas colónias

Disse ao Firmino que tinham de vender a loja e ir para a Europa, para a Metrópole, antes que a situação piorasse ainda mais, que tivessem de fugir à pressa. Queria evitar que a filha passasse por esse trauma

O Firmino queria evitar, a todo o custo, que saíssem de Angola. Tinha ali nascido, sempre ali tinha vivido, nunca tinha ido à Metrópole, e o que diriam os pais e o irmão!

A Mariana e o João apanharam um táxi para a estação ferroviária de Santa Apolónia. Depois do comboio iniciar a marcha, a Mariana começou rememorar o que o filho lhe tinha dito, e perguntou ao marido se ele sabia porque é que ele não andava. Só lhe tinha dito que tinha sido ferido na perna esquerda

João respondeu-lhe, que lhe tinham amputado a perna esquerda, abaixo do joelho, fora o que lhe dissera, quando estavam abraçados

A Mariana começou a chorar e a perguntar porque é que não lhe tinham dito nada? O filho sem uma perna, e ela sem saber, devia ter desconfiado de ele estar na cadeira de rodas

O João abraçou-a, beijo-a, e disse-lhe que o filho não a quis enervar, porque como ela sofre do coração não queria que se enervasse, mas que não ficasse assim, porque vão mandar-lhe fazer uma prótese, e que quando o voltassem a ver já ele andava

Nada a consolava, dizia que tinha ficado sem o filho, desde que tinha ido para Lisboa, que tinham um neto e nem sequer sabiam que ele existia, tudo tão diferente do que era antigamente! Dantes os avós viam os netos crescer, e tomava conta deles enquanto os pais iam trabalhar. Agora, nem filhos, nem netos, todos iam para as grandes cidades e para França, estavam condenados a acabarem os últimos dias sozinhos

 

Os patrões da Miquelina agradeceram-lhe a visita e ficaram encantados com o Miguel, deram-lhes os parabéns por ter um filho muito bonito

Ficaram muito tristes e preocupados por terem amputado a perna do Carlos. Prometeram ajuda-los, arranjando emprego para o Carlos, assim que ele tivesse alta, porque tinham um amigo, que era diretor dum Banco, onde haveria um lugar para ele

A Miquelina agradeceu-lhes, não só o emprego para o Carlos mas também, o facto de os deixarem ficar lá em casa

Tinha boas notícias para o Carlos, quando, no dia seguinte, o fossem visitar. 

Continua.

 

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publicado às 07:56

Amor & guerra (4)

por cheia, em 22.03.21

Amor & guerra (4)

O tempo voava, já se tinham passado nove meses, a Miquelina já tinha terminado o tempo, estava à espera do bebé a qualquer momento. Enquanto o Carlos achava que o tempo não passava, aqueles nove meses pareceram-lhe dois anos

Carlos não deixava de pensar no bebé, que ia nascer e no que queria para ele, e se fosse um rapaz, não queria que fosse para a guerra, porque nunca tinha imaginado, que se pudessem cometer tantas barbaridades: pessoas decapitadas, cabeças e braços pelos ares, devido às granadas, pessoas atropeladas nas picadas, emboscadas, helicópteros equipados com canhões, contrariando as convenções internacionais, horrores indiscritíveis!

Começava a estar indeciso na preferência do sexo do bebé, ainda bem que não dependia dele, a Natureza que decidisse. Só pedia que se fosse menino, não fosse para a guerra. O que viesse era bem-vindo

 

A Barbara, à medida que o fim da gravidez se aproximava, mais sentia a falta dos seus pais. Gostava de ver a sua felicidade por serem avós. Tanto que a poderiam ajudar a criar aquela criança, que ia nascer sem o pai saber

Estava muito preocupada por não ter ninguém a seu lado para a ajudar, para a ensinar, para tomar conta da criança, caso lhe acontecesse alguma coisa.

Se o natural é serem duas pessoas para o conceber, um homem e uma mulher, então para o criarem, também deveriam ser duas.

Tinha tantos pretendentes, a dizerem que a queriam ajudar, mas eram todos militares, que estavam em comissão de serviço, o que lhe fazia lembrar o Carlos, que de um minuto para o outro, desapareceu

A todos dizia, que só aceitava namorar com quem, no fim da comissão, trocasse a viagem grátis para a Metrópole, pelo seu amor.

 

Continua

 

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publicado às 07:55

Amor & guerra (2)

por cheia, em 18.03.21

Amor & guerra (2)

Barbara tentou superar a partida do militar, que a tinha trazido de volta à vida. O negócio começava a compor-se, tinha necessidade de alguém que a ajudasse, uma vez que a barriga crescia e ficava redondinha. Contratou uma empregada, que se tornaria o seu braço direito

Os militares continuavam a chegar a Angola, e a subi-la em direção ao Norte. Ficavam, sempre, alguns dias na Vila da Barbara, por se tratar dum local estratégico, onde aproveitavam para definirem a estratégia e para onde seguir, porque a mobilidade dos guerrilheiros fazia com que tivessem, constantemente, de mudar de estratégia e rumo

O estabelecimento da Barbara, por ser o único na vila, era muito visitado, não só pelos residentes, mas também pelos militares, que tentavam entabular conversa e seduzi-la com promessas, que ela já conhecia. Mas ela só pensava no seu Carlos, o pai do bebé que crescia dentro dela

 

O Carlos, quando chegou a Lunada, escreveu para a namorada, informando-a do SPM, para poderem contatar um com o outro, mas não recebeu notícias dela, porque no início da guerra, a logística estava longe de ser implementada. Quase que se esqueceu dela, porque os horrores que enfrentou não davam espaço para pensar em mais nada. Foram muitas e grandes as atrocidades cometidas de parte a parte

 

Miquelina desesperava por não receber notícias dele. Tinha-o informado de que estava grávida, que tinha voltado para a casa dos pais, para que a ajudassem a criar a criança, uma vez que não podia continuar a trabalhar em Lisboa. Disse-lhe, também, que os pais estavam muito felizes por esperarem um neto ou uma neta

Pela sua cabeça passavam tantos pensamentos: “ será que morreu, que está ferido, que não quer assumir a paternidade do bebé, qual a razão por que não responde?” 

Estava angustiada, quantos pais não querem saber dos filhos, ou que nem sabem que eles existem, ao contrário das mães, que ficam atadas a eles, para toda a vida!

E perguntava-se, por que razão tinha fraquejado no último momento, se, sempre, tinha sido forte, se às muitas pressões para que fizessem sexo, tinha dito não?

O que a animava era a alegria dos pais, que ao verem a barriga a crescer, contavam os meses e os dias que faltavam para verem a neta ou neto. Para eles, fosse o que fosse, era bem-vindo.

Continua

 

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publicado às 07:57


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