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SAntos Populares!

por cheia, em 09.06.22

Santos populares

Ruas embebedadas de fumo de sardinhas assadas

Manjericos com quadras e promessas de amor eterno

Quem quebrar o encantamento vai para o inferno

Alcachofras queimadas, para ver se o amor é correspondido (1)

Com as ruas apinhadas, os moradores acotovelam-se nas sacadas

Ninguém quer perder pitada das ruas engalanadas

Os estrangeiros ficam boquiabertos com as desgarradas

Participam nos bailaricos, não conseguem ficar indiferentes ao apelo daquelas gentes

Entram no ritmo, comem uma sardinha assada, bebem um copo de vinho tinto, e ficam contentes

No mês de junho, Lisboa não dorme, seja rico ou pobre, a noite é de folia

Até à noite de Santo António, todo o tempo é pouco para ensaiar as marchas

Na noite de Santo António as marchas são rainhas, nas outras são as sardinhas

Depois de tantos dias a treinar o ritmo, não há quem os pare

Vão continuar até ao fim do mês, até o São pedro lhes retirar a chave

Não perdem tempo, começam a pensar na marcha do próximo ano

As marchas são uma competição muito renhida

Pela qual são capazes de dar o pão e a vida

Lisboa é uma senhora muito bonita, esbelta, com grandes tradições e muito atrevida

Capaz de encantar e prender até o forasteiro mais esquivo

Com ela, quem não tiver juízo, fica para sempre preso ao seu umbigo

E vai calcorrear as suas colinas, todos os dias, como castigo

Quantos forasteiros, marinheiros, negociantes ficaram a ver navios, pelo postigo!

Sem possibilidades de, um dia, terem um jazigo

Com os olhos posto no panteão luzidio

Acabam por ficar nas ruelas ao vento e ao frio

Sem cheta para pagar a renda ao senhorio

Tem tantos encantos como perigos!

 

 

José Silva Costa

(1)

A alcachofra tem o poder de adivinhar a realização do casamento, devendo para isso ser queimada ou chamuscada na véspera do dia 24, à meia-noite, na fogueira de São João - "Em louvor de São João, para ver se fulano me quer bem ou não" - e deixada ao relento, enterrada num vaso. O casamento está garantido se a planta reflorir no dia seguinte. (Infopédia)

 

 

 

 

 

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publicado às 08:00

Bem-vindo, Junho

por cheia, em 01.06.22

Junho

 

Junho, mês dos Santos Populares

Das marchas e dos manjericos

Dos arrais e dos petiscos

Da sardinha assada e bailaricos

Das férias, da praia e namoricos

Verão, calor, sabor a sal

Um mês de muito sol e alegria

Para receber o verão com toda a energia

Muita folia e magia nas noites quentes

Felizes dias e bons ambientes

Para regozijo das gentes

Mostrando que as sociedades recreativas estão vivas

Que as cidades não estão perdidas

As saudades continuam entretidas

Ao sabor das correrias das vidas

Tão disputadas pelas audienças

Tanta concorrência!

Não faltam bons eventos

O difícil é escolher

Um mês que convida ao lazer

O muito que os nossos olhos querem ver

A impossibilidade de tudo usufruir

As férias porvir

O cansaço já se está a sentir

O descanso demora a sorrir

O verão proporciona convívio e encontros

Matar as saudades e os amigos abraçar.

 

José Silva Cos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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publicado às 08:00

A recompensa

por cheia, em 16.10.20

Mazelas da guerra

 

Continuação

A recompensa

 

Passados 9 meses, estávamos, de novo, em Luanda

Quando chegámos, acompanhei o Capitão ao Quartel-General, onde nos aguardava um Brigadeiro

O Capitão fez-lhe continência e manteve-se em continência, enquanto ele falava, perguntava o que tinha sucedido ………..

O Capitão manteve-se quedo e mudo, até o Brigadeiro corresponder à continência

Como uma parte da tempestade já tinha passado, o Capitão justificou por que razão foi impossível controlar os condutores civis, tudo acabou em bem

Passámos alguns dias em Luanda, antes de seguirmos para os nossos novos destinos

Acabados os dias de férias em Luanda, saímos em direção ao novo paraíso, numa extensa coluna militar, desta vez, em direção ao Sul

Fomos distribuídos por quatro povoações. Ao meu pelotão coube a bonita Vila do Andulo, terra natal de Jonas Savimbi, líder da UNITA – União Nacional para a Independência Total de Angola

Não podíamos ter sido melhor recebidos, ainda não tínhamos autorização para sairmos das viaturas, já estas estavam rodeadas de civis, o inverso do que tinha acontecido no Norte

Ficámos instalados numa casa civil, nunca apagámos as luzes, porque a produção da barragem era superior ao consumo

Havia uma coabitação harmoniosa entre civis e militares. Eramos convidados para os bailaricos, aos sábados à tarde, na Sociedade Recreativa

O nosso mais famoso futebolista, que não pertencia ao meu pelotão, foi logo cobiçado por o clube de futebol, local. Mas havia um pequeno detalhe, não tinha concluído a quarta classe, tudo se resolveu com a conclusão e a sua inscrição na Federação

Fazíamos patrulhas ao nível de secção, numa das patrulhas vimos uma escola em funcionamento, construída em tijolo, muito arejada, não tinha janelas nem porta, a Professora foi muito amável para connosco, esforçou-se para que os alunos falassem em português, mas poucas palavras disseram

Numa outra patrulha encontrámos um comerciante, cuja camioneta estava atascada, e havia já umas boas horas que esperava que alguém passasse e o ajudasse. Com a ajuda de uma árvore, onde prendemos o guincho da nossa viatura, conseguimos que a camioneta voltasse a andar

Camaradas nossos, também em patrulha, foi-lhes pedido que transportassem uma grávida, cujo parto estava complicado, para uma Missão

Na povoação mais distante do nosso raio de ação, vivia um casal de madeirenses, que tinham um comércio, eram os únicos europeus da povoação. Gostavam muito das nossas visitas, pernoitávamos na casa deles, só nos pediam que lhes levássemos pão.

Um dia, quase ao fechar da loja, entrou uma senhora com um açafate cheio de grãos de café, pedindo que o pesassem.

Fiquei sem saber o verdadeiro objetivo, mas penso que quereria saber, quando trouxesse todo o café, os quilos que tinha a receber

Aquele casal comprava-lhes o que produziam ou pescavam e vendia-lhes o quisessem comprar, ainda lhes arranjavam alguns medicamentos. A povoação ficava perto do rio Quanza

Foram estes poucos e pequenos gestos de humanidade que, quanto a mim, deram alguma recompensação aos nossos sacrifícios

Tantas vidas perdidas, tantos recursos mal gastos, que ainda hoje estamos a sofrer as suas consequências

Aproximavam-se as férias, o mês de agosto na Metrópole, na companhia da filha e da mulher, depois de mais um ano sem as ver, o tempo parecia não passar

 Converter angulares em escudos era muito difícil, muitos queriam ter um pé-de-meia na Metrópole, podia-se converter 7.000,00 angulares em escudos, por cada viagem à Metrópole. Assim, abri a minha primeira conta bancária, no único Banco do Andulo, Banco Pinto & Sotto Mayor, que quando foi inaugurado, alguém conseguiu ler: “ branco, tinto e copo maior”, depositei 7.000 angulares e recebi 7.000,00 escudos, em Lisboa

À boleia do Andulo para Luanda, para apanhar o avião, para Lisboa.

Continua

 

 

 

 

 

 

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publicado às 07:37


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