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"Nova Lisboa"

por cheia, em 30.10.20

Mazelas da guerra

Continuação

 

"Nova Lisboa"

 

No regresso das férias, não me consigo lembrar como cheguei ao Andulo

Não sei se foram as palavras da minha filha, que não me deixavam pensar em mais nada

Lembro-me de ter ido ao Banco, para dar baixa da conta, e o empregado se ter mostrado surpreendido por termos ficado, na Vila, tão pouco tempo

De regresso à guerra, encontrei a Companhia já com o terceiro Capitão, ainda jovem, militar de carreira

Fomos deslocados para a bonita cidade de Nova Lisboa, o melhor sítio, com o melhor clima de todos, onde estive, em Angola.

Situada no Planalto Central de Angola, a quase 2.000 metros de altitude, é a segunda cidade mais fria de Angola

 Os soldados ficaram instalados no quartel que existia na cidade, nós tivemos de arranjar onde ficar, à nossa custa

Com  um ótimo cinema: o Ruacaná, um bom restaurante: o Himalaia, uma boa biblioteca, onde passei muito tempo a ler as obras de Fernando Namora

Assisti às 6 horas de Nova Lisboa, ganhas pelo nosso primeiro piloto de fórmula 1, Nicha Cabral, que, infelizmente, nos deixou em agosto de 2020

Em Nova Lisboa, fomos mobilizados para participarmos em rusgas a bairros da periferia da cidade

Cercávamos o bairro, às 3 ou 4 da manhã, não podíamos deixar sair ninguém

Aos nascer do dia, 6 da manhã, a Polícia de Segurança Pública começava a bater às portas, para interrogar os habitantes, alguns eram levados para o Governo Civil, ficavam com o dia estragado, podiam ficar presos, faltavam ao trabalho ……

Mas, mais uma vez, foi, apenas, uma passagem, que nem deu para aquecer o lugar

A seguir fomos colocados no Quartel situado num local chamado Umpulo, na margem direita do rio Quanza, onde existia também uma delegação da PIDE, quanto menos gostávamos dela, mais ela se atravessava no nosso caminho

Os Furriéis eram quase todos contra o regime, tínhamos um do Diário de Lisboa, outro da Emissora Nacional, e um dos Alferes tinha sido expulso da Universidade de Coimbra, todos contra a guerra

Aquando das gravações das mensagens de Natal de 1969, cruzamo-nos com uma equipa da RTP, que andava a recolher as mensagens, mas nós não quisemos gravar as mensagens que diziam: “estou bem, adeus até ao meu regresso “

A cidade mais perto do aquartelamento era General Machado, que fica na margem esquerda do Quanza

A ponte de madeira, que nos permitia atravessar o rio, todas as noites era guardada, porque receávamos que a queimassem

Assim, todos os dias uma secção tinha de ir guarda-la, existia uma cabana para dormirem os que não estivessem de plantão.

Uma noite acordaram-me, porque o inimigo estava a atacar, cheguei cá fora, vi uma trovoada, das que só vi em África. Disse-lhes para estarem descansados, porque era o São Pedro, zangado

Numa outra noite, em que era outra secção que estava de serviço à ponte, tiveram a visita

de um hipopótamo, assustaram-se e mataram o animal, que foi rio abaixo até ficar encalhado

Na povoação, mais perto de onde ele encalhou, houve festa, tudo foi aproveitado

Começava a contagem decrescente, não se podia adiar o problema de alguns soldados não terem a quarta classe

Ninguém podia passar à disponibilidade, não tendo a quarta classe, uma maneira de acabar com analfabetismo, que tanto nos envergonhava

Problema que já tínhamos tentado abordar, em Cavalaria 7, aquando da instrução que lhes demos, antes de embarcarmos

O Capitão, de então, nomeou-me para lhes dar aulas, facultativas, após a instrução

Na primeira semana ainda apareceram bastantes, mas, depois foram faltando, aparecendo 3 ou 4, ninguém estava motivado

Só o facto de pensarem que iam para a guerra os desmotivava

O Capitão desresponsabilizou-me da tarefa, dizendo que, em Angola, se resolveria

Para além de não poderem passar à disponibilidade, também queriam aproveitar para tirar a carta de condução

Já tinham arranjado um diploma, à pressa, para que o nosso mais famoso futebolista, cobiçado pelo clube de uma povoação, onde antes tínhamos estado, pudesse ser inscrito na Federação

Pouco jogou, porque não aquecemos o lugar. Infelizmente, viria a morrer num desastre de viação, em Nova Lisboa, quando aguardávamos pelo embarque

Um professor fez-lhes o exame da quarta classe

Uma sala comprida, com um quadro preto, quase do tamanho to topo da sala

Estava cheia, todos sentados a copiarem o que o professor escrevia no quadro

Fui lá espreitar, disseram-me que qualquer pontinho, que o professor não apagasse, também copiavam, a copiar eram bons!

As escolas de condução automóvel acompanhavam-nos, para todo o lado. Todas as povoações, que tivessem militares por perto, tinham uma escola de condução

Assim que fomos para o Umpulo, fui logo, a General Machado, comprar uma carta de condução: linda, profissional, do último modelo, podia conduzir todos os veículos, pesados, ligeiros, com reboque, articulados, motas, só não podia conduzir veículos de transportes públicos. Foi cara, 5.000 angolares, mas era boa

No exame de condução de mota, o examinador disse-me para fazer uns oitos, mas eu estava com medo que ela se assustasse e caísse, fiz um círculo

No exame de condução da camioneta, pediu-me, numa descida, para a parar sem travões, só que ela não obedeceu, e só parou na subida.

 

 Continua

 

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publicado às 06:27

O nascimento de uma escola!

por cheia, em 26.09.19

Nascimento de uma escola

Estávamos em outubro de 1951.
No monte do Lobato, alguém ofereceu uma casa, para ali nascer uma escola.
Três ou quatro professoras foram ver o local, mas só a última aceitou criar uma escola, numa casa particular: quatro paredes, algumas cadeiras, uma ou duas mesas, nada mais!
A professora era uma jovem muito determinada e apostada em tirar as crianças dos trabalhos no campo, para que aprendessem a ler e escrever. Eram pouco mais de meia dúzia, de várias idades! 
Poucos pais tinham a perceção de que mandar os filhos à escola era o melhor para o seu futuro. Eles não tinham ido à escola e conseguiam governar a vida. Portanto, ainda não se tinham apercebido de quanto era importante saber ler e escrever.
Passado um ou dois meses, a professora vendo que não apareciam mais alunos, decidiu ir com eles até ao Monte Santana, para informar os pais, de que era obrigatório mandar os filhos à escola.
A professora à frente, os alunos atrás dela, por um caminho, que ligava as duas povoações, a meio caminho encontraram um homem e o filho a trabalharem numa horta, cumprimentaram-nos, e a professora questionou o senhor, perguntando-lhe se sabia que era obrigatório mandar o filho à escola. O pai do rapaz disse: “Se a senhora lhe der de comer.”
Seguiram para o Monte Santana, onde a professora tentou, junto de mães e pais, sensibilizá-los para a importância de mandarem os filhos à escola.
Numa manhã, por volta das dez horas, uma rapariga pediu à professora para ir lá fora, mas a professora não a autorizou porque estava quase na hora do intervalo, pouco depois a rapariga abriu as pernas e regou a sala de aulas. De seguida a professora mandou todos para o recreio; nem os rapazes, nem as raparigas usavam cuecas: elas usavam vestidos e eles calças ou calções.
Numa manhã de sol radioso, avistaram uma carroça da Câmara Municipal de Mértola, puxada por um macho, conduzida por um funcionário da respetiva Câmara, carregada de material.
O funcionário começou por fixar, na parede norte, o quadro preto, do lado direito penduraram os mapas, por cima do quadro, a meio, colocaram o crucifixo, do lado esquerdo a cadeira e a secretária da professora, no resto da sala as carteiras dos alunos, com os tinteiros brancos incrustados. 
Também receberam uma caixa de giz, um globo e umas canetas de madeira com um aparo metálico.
Foi mais um dia inesquecível, no ano do nascimento da escola.

José Silva Costa

 

 

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publicado às 19:18


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