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Quingentésimo ano (162)

por cheia, em 10.06.24

Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades

"Eis aqui, quase cume da cabeça
De Europa toda, o Reino Lusitano,
Onde a terra se acaba e o mar começa,

 

"Esta é a ditosa pátria minha amada,
A qual se o Céu me dá que eu sem perigo
Torne, com esta empresa já acabada,

 

- «Ó glória de mandar, ó vã cobiça
Desta vaidade a quem chamamos Fama!

 

Oh, que famintos beijos na floresta,
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves! Que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!

 

A formusura desta fresca serra

E a sombra dos verdes castanheiros,

O manso caminhar destes ribeiros,

 

O dia em que nasci moura e pereça,

Não o queira jamais o tempo dar;

Não torne mais ao mundo, e, se tornar,

Eclipse nesse passo o Sol padeça.

 

Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruto,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuto,
Aos montes ensinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.

 

- "Ó tu, que tens de humano o gesto e o peito
(Se de humano é matar uma donzela
Fraca e sem força, só por ter sujeito
O coração a quem soube vencê-la)
A estas criancinhas tem respeito,
Pois o não tens à morte escura dela;
Mova-te a piedade sua e minha,
Pois te não move a culpa que não tinha.

 

Amor é fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente,
É dor que desatina sem doer.

 

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Ceo eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste

 

«Entrava a fermosíssima Maria »

Pelos paternais paços sublimados,

Lindo o gesto, mas fora de alegria,

E seus olhos em lágrimas banhados;

Os cabelos angélicos trazia

Pelos ebúrneos ombros espalhados

Diante do pai ledo, que a agasalhava,

Estas palavras tais, chorando, espalha:  (canto III, estrofe 102)

 

«« Aquele que me deste por marido,

      Por defender sua terra amedrontada,

       Co' o pequeno poder, oferecido

       Ao duro golpe está de maura espada;

        E, se não for contigo socorrido,

         Ver-me-ás dele e do Reio ser privada

          Viúva e triste e posta em vida escura,

           Sem marido, sem Reino e sem ventura.   (canto III, estrofe 104)

 

Camões, grande Camões, quão semelhante

Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!

Igual causa nos fez, perdendo o Tejo,

Arrostar co` o  sacrílego gigante;

(Bocage)

 

 

 

 

 

 

 

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publicado às 07:50


11 comentários

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De Aqui há coração a 10.06.2024 às 10:11

Eternas são e serão estas palavras .
Obrigada.
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De cheia a 10.06.2024 às 15:10

Sem dúvida! Atravessarão todos os séculos.
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De Isabel Paulos a 10.06.2024 às 10:51

Bom dia, José.
Obrigada por este medley camoniano.
Bom feriado.
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De cheia a 10.06.2024 às 15:36

Foi só um "cheirinho", para abrir o apetite , na esperança que voltem a ler a obra do nosso grande Camões.

Boa semana, Isabel.
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De Maria João Brito de Sousa a 10.06.2024 às 12:13

Bom dia, Cheia!

Um magnífico medley de Camões muitíssimo bem rematado por uma estrofe de

Bocage!

Bem me avisou que a publicação de hoje seria diferente... :)

Feliz Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas!

Abraço
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De cheia a 10.06.2024 às 20:03

Foi um " cheirinho" dos belíssimos textos do nosso grande Camões, para abrir o "apetite" aos leitores e às leitoras.
Boa semana ,Maria João!

Um abraço.
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De Maria João Brito de Sousa a 10.06.2024 às 20:09

E foi esse delicioso cheirinho que me inspirou, Cheia! Obrigada!

Outro abraço
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De Luísa de Sousa a 10.06.2024 às 14:15

Tão bonito este poema, José

Beijinhos
Feliz Dia
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De cheia a 10.06.2024 às 20:05

Muito obrigado!

Boa noite, Luísa!

Beijinhos
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De MJP a 10.06.2024 às 21:06

Grata pela partilha, José! :))
Boa noite e Boa semana!
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De cheia a 10.06.2024 às 21:58

Muito obrigado!

Noite tranquila, Zé!

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