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O medo

por cheia, em 11.09.20

As mazelas da guerra

Continuação

O medo

 

Na primeira noite que dormimos no mato, o medo era de cortar à faca

No silêncio da noite, o mais pequeno ruído parece um furacão

Também tinha medo, mas estava mais à vontade por já ter dormido algumas vezes nas eiras

Um condutor preferiu dormir dentro da viatura, em vez da tenda

Noite dentro, contatou-me, dizendo que tinha uma cobra dentro da viatura

Lá fui, para ver a cobra, chegados à viatura, vi o limpa-para-brisas a trabalhar

Pedi-lhe para desligar o limpa-para-brisas, que a cobra se ia embora, e nós íamos dormir

Como o limpa-para-brisas era acionado manualmente, o que deve ter acontecido, é tê-lo ligado, ao mexer-se, possivelmente com o joelho

No dia seguinte voltámos ao acampamento, tendo tudo corrido bem

A primeira etapa estava concluída. A partir dali, os relatórios quinzenais seriam emitidos sem sairmos de casa, até porque, em breve, ficaríamos desfalcados, com dois pelotões destacados, para a zona do Quitexe

Antes de ir para o Quitexe, a minha seção e outra foram mobilizadas para darem proteção a uma coluna de camiões civis, entre Maquela do Zombo e São Salvador do Congo

Lá fomos, eu e o meu amigo Ramos, camarada de curso, que, infelizmente, viria a morrer, já depois de termos acabado a comissão, com as nossas seções montadas em duas viaturas equipadas com duas metralhadoras pesadas Breda, instaladas num dispositivo, em que as podíamos rodar trezentos e sessenta graus

No regresso vimos um elefante, que atravessou a picada à nossa frente, escondendo-se, imediatamente, na densa mata 

Foi a prenda que tive no dia dos meus 24 anos, uma prenda diferente e única, vimos um elefante, em liberdade, no seu habitat

Depois do reconhecimento da nossa zona de ação, fomos visitar uma povoação, onde nos receberam muito bem, e nós oferecemos-lhes alguns produtos das rações de combate de que não gostávamos

Tive oportunidade de falar com um homem, que tinha 20 mulheres, disse-me que todas se davam muito e que obedeciam, todas, à mais velha, eram elas que trabalhavam nas terras, a ele cabia-lhe fazer e colocar armadilhas para caça e pesca

Que os homens quanto mais mulheres tivessem, mais ricos eram, e que quando ficavam grávidas deixavam de ter relações sexuais até terem os bebés

As mulheres faziam as sementeiras, e no caso dos amendoins tinham de as guardar, para que os macacos não os comessem

Outra tarefa a que as mulheres se dedicavam era, com sachos, apanhar ratos, que eram muito apreciados.

Aproveitei para pegar num bebé, tiram-me uma fotografia, enviei-a para a minha mulher que, apesar dos poucos meses da chegada a Angola, não a apreciou, o que seria se já tivessem passado mais de nove meses!

 

 

Continua

 

 

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publicado às 07:18


14 comentários

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De bii yue a 11.09.2020 às 22:30

Em três letras wow!
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De cheia a 11.09.2020 às 22:41

Muito obrigado!

Feliz fim-de-semana!

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