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Quingentésimo ano (203)

por cheia, em 21.07.24

Se de vosso fermoso e lindo gesto
nasceram lindas flores para os olhos,
que para o peito são duros abrolhos,
em mim se vê mui claro e manifesto.

Pois vossa fermosura e vulto honesto,
em os ver, de boninas vi mil molhos;
mas, se meu coração tivera antolhos,
não vira em vós seu dano o mal funesto;

um mal visto por bem, um bem tristonho,
que me traz elevado o pensamento
em mil, porém diversas, fantasias,

nas quais eu sempre ando, e sempre sonho.
E vós não cuidais mais que em meu tormento,
em que fundais as vossas alegrias.

Luís de Camões

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publicado às 07:55

Quingentésimo ano (202)

por cheia, em 20.07.24

Se cuidasse que nesse peito isento
inda algum tempo minha grande dor
vos fizesse sentir, não digo amor,
senão um piadoso sentimento;

tamanho fora meu contentamento
que o mal que por vós passo, inda que mor,
sem pena, sem cuidado, sem temor,
sem queixumes passara este tormento.

Porém como, Senhora, já conheço
a vossa condição isenta e dura
no pouco que sentis o que padeço,

não há i senão queixar-me da Ventura
pois, em lugar do bem que vos mereço,
males em tanto mal me dais por cura.

Luís de Camões

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publicado às 08:04

Quingentésimo ano (201)

por cheia, em 19.07.24

Se com desprezos, Nympha, te parece
Que podes desviar do seu cuidado
Hum coração constante, que se offrece
A ter por gloria o ser atormentado.

Deixa a tua porfia, e reconhece
Que mal sabes de amor desenganado;
Pois não sentes, nem vês que em teu mal crece,
Crescendo em mi de ti mais desamado.

O esquivo desamor, com que me tratas,
Converte em piedade, se não queres
Que cresça o meu querer, e o teu desgosto.

Vencer-me com cruezas nunca esperes:
Bem me podes matar, e bem me matas;
Mas sempre ha de viver meu presupposto.

 

Luís de Camões

 

 
 
 
 
 

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publicado às 07:54

Quingentésimo ano (200)

por cheia, em 18.07.24

Se as penas com que Amor tão mal me trata
Permittirem que eu tanto viva dellas,
Que veja escuro o lume das estrellas,
Em cuja vista o meu se accende e mata;

E se o tempo, que tudo desbarata,
Seccar as frescas rosas, sem colhellas,
Deixando a linda côr das tranças bellas
Mudada de ouro fino em fina prata;

Tambem, Senhora, então vereis mudado
O pensamento e a aspereza vossa,
Quando não sirva ja sua mudança.

Ver-vos-heis suspirar por o passado,
Em tempo quando executar-se possa
No vosso arrepender minha vingança.

Luís de Camões

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publicado às 07:49

Quingentésimo ano (199)

por cheia, em 17.07.24

Se somente hora alguma em vós piedade
De tão longo tormento se sentíra,
Amor sofrêra mal que eu me partíra
De vossos olhos, minha Saudade.

Apartei-me de vós, mas a vontade,
Que por o natural na alma vos tira,
Me faz crer que esta ausencia he de mentira;
Porém venho a provar que he de verdade.

Ir-me-hei, Senhora; e neste apartamento
Lagrimas tristes tomarão vingança
Nos olhos de quem fostes mantimento.

Desta arte darei vida a meu tormento;
Que, em fim, cá me achará minha lembrança
Sepultado no vosso esquecimento.

Luís de Camões

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publicado às 07:50

Quingentésimo ano (198)

por cheia, em 16.07.24

Se a ninguém tratais com desamor,
antes a todos tendes afeição,
e se a todos mostrais um coração
cheio de mansidão, cheio de amor;

desde hoje me tratai com desfavor,
mostrai-me um ódio esquivo, ũa isenção;
poderei acabar de crer então
que somente a mi me dais favor.

Que, se tratais a todos brandamente,
claro é que aquele é só favorecido
a quem mostrais irado o continente.

Mal poderei eu ser de vós querido,
se tendes outro amor na alma presente,
que amor é um, não pode ser partido.

Luís de Camões

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publicado às 07:49

Quingentésimo ano (197)

por cheia, em 15.07.24

Se a Fortuna inquieta e mal olhada,
que a justa lei do Céu consigo infama,
a vida quieta, que ela mais desama,
me concedera, honesta e repousada;

pudera ser que a Musa, alevantada
com luz de mais ardente e viva flama,
fizera ao Tejo lá na pátria cama
adormecer co som da lira amada.

Porém, pois o destino trabalhoso,
que me escurece a Musa fraca e lassa,
louvor de tanto preço não sustenta,

a vossa, de louvar-me pouco escassa,
outro sujeito busque valeroso,
tal qual em vós ao mundo se apresenta.

Luís de Camões

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publicado às 07:50

Quingentésimo ano (196)

por cheia, em 14.07.24

De tão divino accento em voz humana,
De elegancias que são tão peregrinas,
Sei bem que minhas obras não são dinas;
Que o rudo engenho meu me desengana.

Porém da vossa penna illustre mana
Licor que vence as águas Caballinas;
E comvosco do Tejo as flores finas
Farão inveja á cópia Mantuana.

E pois, a vós de si não sendo avaras,
As filhas de Mnemosine formosa
Partes dadas vos tẽe ao mundo claras;

A minha Musa, e a vossa tão famosa,
Ambas se podem nelle chamar raras,
A vossa de alta, a minha de invejosa.

Luís de Camões

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publicado às 07:57

Quingentésimo ano (195)

por cheia, em 13.07.24

Razão é já que minha confiança
se deça de ũa falsa opinião;
mas Amor não se rege por razão:
não posso perder logo a esperança.

A vida, si; que ũa áspera mudança
não deixa viver tanto um coração.
E eu na morte tenho a salvação,
si; mas quem a deseja não a alcança.

Forçado é logo que eu espere e viva.
Ah! dura lei de Amor, que não consente
quietação nũa alma que é cativa!

Se hei-de viver, enfim, forçadamente,
para que quero a glória fugitiva
de ũa esperança vã que me atormente?

Luís de Camões

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publicado às 07:51

Quingentésimo ano (194)

por cheia, em 12.07.24

Quem vos levou de mi, saudoso estado,
que tanta sem-razão comigo usastes?
Quem foi? Por quem tão presto me negastes,
esquecido de todo o bem passado?

Trocastes-me um descanso em um cuidado
tão duro, tão cruel, qual me ordenastes;
a fé, que tínheis dado, me negastes,
quando mais nela estava confiado.

Vivia sem receio deste mal;
Fortuna, que tem tudo a sua mercê,
amor com desamor me revolveu.

Bem sei que neste caso nada val,
que, quem naceu chorando, justo é
que pague com chorar o que perdeu.

Luís de Camões

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publicado às 07:49

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