Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Quingentésimo ano (142)

por cheia, em 21.05.24

Não vás ao monte, Nise, com teu gado;
Que lá vi que Cupido te buscava:
Por ti somente a todos perguntava,
No gesto menos placido que irado.

Elle publíca, em fim, que lhe has roubado
Os melhores farpões da sua aljava;
E com hum dardo ardente assegurava
Traspassar esse peito delicado.

Fuge de ver-te lá nesta aventura,
Porque se contra ti o tens iroso,
Póde ser que te alcance com mão dura.

Mas ai! que em vão te advirto temeroso,
Se á tua incomparavel formosura
Se rende o dardo seu mais poderoso!

Luís de Camões

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 07:50

Quingentésimo ano (141)

por cheia, em 20.05.24

Não passes, caminhante. Quem me chama?
Hũa memoria nova e nunca ouvida,
De hum que trocou finita e humana vida
Por divina, infinita, e clara fama.

Quem he, que tão gentil louvor derrama?
Quem derramar seu sangue não duvida,
Por seguir a bandeira esclarecida
De hum capitão de Christo que mais ama.

Ditoso fim, ditoso sacrificio,
Que a Deos se fez e ao mundo juntamente!
Pregoando direi tão alta sorte.

Mais poderás contar a toda a gente
Que sempre deo na vida claro indicio
De vir a merecer tão santa morte.

Luís de Camões

 
 
 
 
 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 07:49

Quingentésimo ano (140)

por cheia, em 19.05.24

Naiades, vós que os rios habitais,
Que os saudosos campos vão regando,
De meus olhos vereis estar manando
Outros que quasi aos vossos são iguais.

Dryades, que com setta sempre andais
Os fugitivos cervos derribando,
Outros olhos vereis, que triumphando
Derribão corações, que valem mais.

Deixai logo as aljavas e águas frias,
E vinde, Nymphas bellas, se quereis,
A ver como de huns olhos nascem mágoas.

Notareis como em vão passão os dias;
Mas em vão não vireis, porque achareis
Nos seus as settas, e nos meus as águas.

Luís de Camões

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 07:55

Quingentésimo ano (139)

por cheia, em 18.05.24

Na metade do ceo subido ardia
O claro, almo Pastor, quando deixavão
O verde pasto as cabras, e buscavão
A frescura suave da agua fria.

Com a folha das árvores, sombria,
Do raio ardente as aves se amparavão:
O módulo cantar, de que cessavão,
Só nas roucas cigarras se sentia.

Quando Liso pastor n'hum campo verde
Natercia, crua Nympha, só buscava
Com mil suspiros tristes que derrama.

Porque te vás de quem por ti se perde,
Para quem pouco te ama? (suspirava)
E o eco lhe responde: Pouco te ama.

Luís de Camões

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 07:55

Quingentésimo ano (138)

por cheia, em 17.05.24

Na desesperação já repousava
O peito longamente magoado,
E, com seu damno eterno concertado,
Ja não temia, já não desejava;

Quando huma sombra vãa me assegurava
Que algum bem me podia estar guardado
Em tão formosa imagem, que o traslado
N'alma ficou, que nella se enlevava.

Que credito que dá tão facilmente
O coração áquillo que deseja,
Quando lhe esquece o fero seu destino!

Ah! deixem-me enganar; que eu sou contente;
Pois, postoque maior meu damno seja,
Fica-me a glória já do que imagino.

Luís de Camões

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 07:49

Quingentésimo ano (137)

por cheia, em 16.05.24

Memórias ofendidas que um só dia
me não deixais em paz o pensamento,
não me daneis o gosto do tormento,
que quem vos ofendeu vos defendia.

Que me quereis? Olhai que se injuria
convosco o delicado sentimento
que me ficou do eterno apartamento
de quem já tem desfeita a morte fria.

Deixaram-me co a mágoa das ofensas;
levaram um remédio só que tinha.
Quem irá vencer a pena que alma sente,

Onde achará do dano as recompensas,
se ainda de ser triste a dita minha
me não deixa um momento ser contente?

Luís de Camões

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 07:51

Quingentésimo ano (136)

por cheia, em 15.05.24

Memória de meu bem, cortado em flores
por ordem de meus tristes e maus Fados,
deixai-me descansar com meus cuidados
nesta inquietação de meus amores.

Basta-me o mal presente e os temores
dos sucessos, que espero, infortunados;
sem que venham, de novo, bens passados
afrontar meu repouso com suas dores.

Perdi nũa hora quanto em termos
tão vagarosos e largos alcancei;
deixai-me, pois, lembranças desta glória.

Cumpre acabe a vida nestes ermos,
que neles com meu mal acabarei
mil vidas, não ũa só, dura memória!

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 07:50

Imigrantes

por cheia, em 14.05.24

Imigrantes

Vindes à procura de um lugar seguro

De um país de emigrantes, maduro

Cujos governantes vos querem dignificar

Não vos querem ver chegar de mãos a abanar

Só vos deixam entrar, se tiverdes dinheiro para, no hotel, ficar

Precisamos de mão-de-obra, para fazer o que nós já não queremos fazer

Como somos muito hospitaleiros, não queremos que vivam em palheiros

Com os bons ordenados, bem podeis viver com muita dignidade

Até tendes a facilidade de escolher entre o campo e a cidade

O que mais prezamos é a igualdade

Sabemos bem o que é ser emigrante

Temos emigrantes por todo o mundo

Sabemos bem o que é ser bem recebido

Fomos a salto á procura do desconhecido

Agora, já sabemos ao que vamos

Formamos os nossos jovens, para emigrarem

Para os outros países desenvolverem

Porque não fomos capazes de rentabilizar o dinheiro, que recebemos

Um perdeu-se, o outro foi mal gasto

Continuamos sem capacidade para os segurar

Nem as especiarias, nem o ouro, nem os euros nos conseguiram tirar do nosso lugar

A cauda da Europa

É o nosso fado.

 

José Silva Costa

 

 

 

  

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 07:50

Quingentésimo ano (135)

por cheia, em 14.05.24

Males, que contra mim vos conjurastes,
Quanto ha de durar tão duro intento?
Se dura, porque dure meu tormento,
Baste-vos quanto ja me atormentastes.

Mas se assi porfiais, porque cuidastes
Derribar o meu alto pensamento,
Mais póde a causa delle, em que o sustento,
Que vós, que della mesma o ser tomastes.

E pois vossa tenção com minha morte
He de acabar o mal destes amores,
Dai ja fim a tormento tão comprido.

Assi de ambos contente será a sorte;
Em vós por acabar-me, vencedores,
Em mim porque acabei de vós vencido.

Luís de Camões

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 07:49

Quingentésimo ano (134)

por cheia, em 13.05.24

Lembranças saudosas, se cuidais
De me acabar a vida neste estado,
Não vivo com meu mal tão enganado,
Que não espere delle muito mais.

De longo tempo ja me costumais
A viver de algum bem desesperado:
Ja tenho co'a Fortuna concertado
De soffrer os tormentos que me dais.

Atada ao remo tenho a paciencia
Para quantos desgostos der a vida;
Cuide quanto quizer o pensamento.

Que pois não posso ter mais resistencia
Para tão dura quéda, de subida,
Aparar-lhe-hei debaixo o soffrimento.

Luís de Camões

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 07:52



Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Posts mais comentados


Arquivo

  1. 2024
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2023
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2022
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2021
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2020
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2019
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2018
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2017
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2016
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2015
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2014
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D