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Quingentésimo ano (152)

por cheia, em 31.05.24

O filho de Latona esclarecido,
Que com seu raio alegra a humana gente,
Matar pôde a Phytonica serpente
Que mortes mil havia produzido.

Ferio com arco, e de arco foi ferido,
Com ponta aguda de ouro reluzente:
Nas Thessalicas praias docemente
Por a nympha Penea andou perdido.

Não lhe pôde valer contra seu dano
Saber, nem diligencias, nem respeito
De quanto era celeste e soberano.

Pois se hum deos nunca vio nem hum engano
De quem era tão pouco em seu respeito,
Eu qu'espero de hum ser, qu'he mais que humano?

Luís de Camões

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publicado às 07:51

Quingentésimo ano (151)

por cheia, em 30.05.24

O culto divinal se celebrava
No templo donde toda criatura
Louva o Feitor divino, que a feitura
Com seu sagrado sangue restaurava.

Amor alli, que o tempo me aguardava
Onde a vontade tinha mais segura,
Com huma rara e angelica figura
A vista da razão me salteava.

Eu crendo que o lugar me defendia
De seu livre costume, não sabendo
Que nenhum confiado lhe fugia;

Deixei-me captivar: mas hoje vendo,
Senhora, que por vosso me queria,
Do tempo que fui livre me arrependo.

Luís de Camões

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publicado às 08:27

Quingentésimo ano (150)

por cheia, em 29.05.24

O cysne quando sente ser chegada
A hora que põe termo á sua vida,
Harmonia maior, com voz sentida,
Levanta por a praia inhabitada.

Deseja lograr vida prolongada,
E della está chorando a despedida:
Com grande saudade da partida,
Celebra o triste fim desta jornada.

Assi, Senhora minha, quando eu via
O triste fim que davão meus amores,
Estando posto ja no extremo fio;

Com mais suave accento de harmonia
Descantei por os vossos desfavores
La vuestra falsa fe, y el amor mio.

Luís de Camões

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publicado às 07:49

Quingentésimo ano (149)

por cheia, em 28.05.24

Num tão alto lugar, de tanto preço,
este meu pensamento posto vejo,
que desfalece nele inda o desejo,
vendo quanto por mim o desmereço.

Quando esta tal baixeza em mim conheço,
acho que cuidar nele é grão despejo,
e que morrer por ele me é sobejo
e mor bem para mim do que mereço.

O mais que natural merecimento
de quem me causa um mal tão duro e forte
o faz que vá crecendo de hora em hora.

Mas eu não deixarei meu pensamento,
porque, inda que este mal me causa a morte,
un bel morir tutta la vita onora.

Luís de Camões

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publicado às 07:42

Quingentésimo ano (148)

por cheia, em 27.05.24

N'hum bosque, que das Nymphas se habitava,
Sibella, Nympha linda, andava hum dia;
E subida em huma árvore sombria,
As amarellas flores apanhava.

Cupido, que alli sempre costumava
A vir passar a sésta á sombra fria,
Em hum ramo arco e settas, que trazia,
Antes que adormecesse, pendurava

A Nympha, como idoneo tempo víra
Para tamanha empresa, não dilata;
Mas com as armas foge ao moço esquivo.

As settas traz nos olhos, com que tira.
Ó Pastores! fugi, que a todos mata,
Senão a mim, que de matar-me vivo.

Luís de Camões

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publicado às 07:50

Quingentésimo ano (147)

por cheia, em 26.05.24

Nos braços de hum Sylvano adormecendo
Se estava aquella Nympha qu'eu adoro,
Pagando com a boca o doce foro,
Com que os meus olhos foi escurecendo.

Oh bella Venus! porqu'estás soffrendo
Que a maior formosura do teu côro
Em hum poder tão vil perca o decoro
Que o merito maior lhe está devendo?

Eu levarei daqui por presupposto
Desta nova estranheza que fizeste,
Que em ti não póde haver cousa segura.

Que, pois o claro lume, o bello rosto
Áquelle monstro tão disforme déste,
Não creio qu'haja Amor, senão Ventura.

Luís de Camões

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publicado às 07:53

Quingentésimo ano (146)

por cheia, em 25.05.24

No tempo que de amor viver sohia,
Nem sempre andava ao remo ferrolhado;
Antes agora livre, agora atado,
Em várias flammas variamente ardia.

Que ardesse n'hum só fogo não queria
O Ceo porque tivesse exprimentado
Que nem mudar as causas ao cuidado
Mudança na ventura me faria.

E se algum pouco tempo andava isento,
Foi como quem co'o pêzo descansou
Por tornar a cansar com mais alento.

Louvado seja Amor em meu tormento,
Pois para passatempo seu tomou
Este meu tão cansado soffrimento!

Luís de Camões

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publicado às 07:48

Quingentésimo ano (145)

por cheia, em 24.05.24

No mundo quiz o Tempo que se achasse
O bem que por acêrto, ou sorte vinha;
E por exprimentar que dita tinha,
Quiz que a Fortuna em mi se exprimentasse.

Mas porque o meu destino me mostrasse
Que nem ter esperanças me convinha,
Nunca nesta tão longa vida minha
Cousa me deixou ver que desejasse.

Mudando andei costume, terra, estado,
Por ver se se mudava a sorte dura;
A vida puz nas mãos de hum leve lenho.

Mas, segundo o que o Ceo me tẽe mostrado,
Ja sei que deste meu buscar ventura
Achado tenho ja que não a tenho.

Luís de Camões

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publicado às 07:50

Quingentésimo ano (144)

por cheia, em 23.05.24

No mundo poucos annos e cansados
Vivi, cheios de vil miseria e dura:
Foi-me tão cedo a luz do dia escura,
Que não vi cinco lustros acabados.

Corri terras e mares apartados,
Buscando á vida algum remedio ou cura:
Mas aquillo que, em fim, não dá ventura
Não o dão os trabalhos arriscados.

Criou-me Portugal na verde e chara
Patria minha Alemquer; mas ar corruto,
Que neste meu terreno vaso tinha,

Me fez manjar de peixes em ti, bruto
Mar, que bates a Abássia fera e avara,
Tão longe da ditosa patria minha.

Luís de Camões

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publicado às 07:51

Quingentésimo ano (143)

por cheia, em 22.05.24

Nem o tremendo estrépito da guerra,
com armas, com incêndios espantosos,
que despacham pelouros perigosos,
bastantes a abalar ũa alta serra,

podem pôr medo a quem nenhum encerra,
depois que viu os olhos tão fermosos,
por quem o horror nos casos pavorosos
de mi todo se aparta e se desterra.

A vida posso ao fogo e ferro dar,
e perdê-la em qualquer duro perigo,
e nele, como Fénix, renovar.

Não pode mal haver pera comigo,
de que eu já me não possa bem livrar,
senão do que me ordena Amor imigo.

Luís de Camões

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