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Amor & guerra (38)

por cheia, em 28.06.21

Amor & Guerra (38)

Carlos estava arrasado, tinha sido um dia infernal: primeiro o reencontro com a Bárbara, de quem não esperava, depois de tantos anos, palavras tão agressivas, mostrando-lhe que a tinha abandonado, prenha duma filha dele, o que mais tinha mexido com ele. Como é que nunca tinha pensado nisso

A seguir foram as acusações do filho que, como era natural, se colocou ao lado da mãe Normalmente, os filhos têm um carinho muito especial para com as mães

Não tinha ficado a saber a opinião da filha, mas o facto de, pela primeira vez, o ter beijado, como filha, fê-lo sentir a responsabilidade de ter colocado aquele ser tão delicado, no mundo, e de nunca ter contribuído com o seu carinho, para o seu crescimento, nem se ter preocupado com a sua existência

Para terminar o mais longo e horrível dia da sua vida, nem o dia em que foi ferido e perdeu a perna tinha sido tão doloroso, ainda faltava convencer a Miquelina de que a culpa não tinha sido sua

Começou por lhe dizer, que na guerra tudo era diferente, que se esqueciam que eram gente, que praticavam coisas horríveis, que os acompanhavam para sempre, e que quando sobreviviam se arrependiam, mas carregavam as atrocidades, que tinham praticado, pela vida fora, até à morte. Era por isso, que nunca falavam do que se tinha passado, mesmo que muito questionados, por todos, tinham receio da opinião pública e da condenação dos pais, das mulheres, dos filhos, dos netos

Já lhes bastavam os remorsos do que tinham feito, de nunca mais terem tio um minuto de sossego, o que levava muitos ao desespero, fazendo com que ficassem incapazes para arranjarem emprego, só lhes restava a auréola de Antigos Combatentes

A Miquelina, depois de ouvir todo aquele discurso, concordou com ele, dizendo que a guerra tinha sido o maior horror que tinha acontecido, todos tinha sofrido com a chacina, por todos praticada, mas isso não apagava o facto de a ter traído e nunca ter dito nada, se a Bárbara não tivesse engravidado, nunca viria a saber, portanto não o podia perdoar

O Carlos pediu-lhe para não decidir sem ponderar muito bem, porque tinham sido muito felizes, durante muitos anos, e tinham um lindo filho, para acabarem de criar

A Miquelina lembrou-lhe, que ela tinha um filho, mas ele tinha dois, e o melhor seria pedir-lhes para o perdoarem, porque ela queria o divórcio

O Carlos continuou a pedir-lhe para o perdoar, porque a culpa não tinha sido dele, mas da Bárbara. Ela, para acabar com a conversa, perguntou-lhe se tivesse sido ela a traí-lo, se lhe perdoava. Ele não respondeu, e cada um foi para seu lado

O Migue disse à Sara, que a mãe se queria divorciar, fazendo com que ela se sentisse, ainda, mais triste por ter contribuído para aquela separação, quando o que queria era que todos fossem felizes. Estava muito preocupada, principalmente, com o pai.

 

Continua.

 

 

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publicado às 07:59

Amor & guerra (37)

por cheia, em 24.06.21

Amor & guerra (37)

Não queria mais falar do passado, tinha-o encontrado, a filha, finalmente, ia saber quem era o pai, deixar de se sentir inferiorizada, por não saber quem era o pai, como aconteceu na Escola Primária, onde tinha três colegas, que também não conheciam os pais, todos filhos de militares, que tinham passado por Angola, apontados, pelos colegas, como os filhos da guerra

Se por um lado se sentia apaziguada, por, felizmente, o ter reencontrado com vida, para grande felicidade da Sara, por o outro, sentia-se culpada por o que a Miquelina iria sofrer, quando soubesse que tinha sido traída, em Angola, enquanto, na Metrópole, carregava, no  ventre, um filho do Carlos

Já sabia, que quando ela e a filha, se apresentassem a outra família, dizendo que, também, elas faziam parte dessa família, provocariam um tremor de terra

Mas, seria diferente, se não conhecessem essa família. De qualquer maneira, sentia-se tão triste, que já não sabia o que teria sido melhor, se ter reencontrado o Carlos, ou se nunca soubesse o que lhe tinha acontecido, não tendo contribuído para que a mulher dele soubesse que tinha sido traída

Tinha de ir falar com a Miquelina, mas só o podia fazer, depois do Carlos dizer à mulher, ao filho e à filha, que se tinha encontrado com ela, no Banco, ficando a saber que era o pai da Sara

Não sabia como é que ele iria descalçar aquela bota, mas queria que ele deslindasse aquele imbróglio, quanto antes

O Carlos foi para casa, durante toda a viagem não deixou de pensar como é que iria dizer que era pai da Sara. Não sabia qual seria a reação de cada um, mas sabia que a Miquelina não lhe perdoaria.

Quando chegou a casa, o Miguel e a Sara preparavam-se para sair, iam ao cinema, pediu-lhes para ficarem, porque precisava de falar com eles. A Miquelina ainda perguntou se era assim tão urgente, vendo que ele estava muito nervoso, sem saber o que tinha acontecido

O Carlos disse que se tinha encontrado com a Bárbara, no Banco, e que ela lhe tinha dito que a Sara era sua filha. Foi como se estivesse o mundo a desmoronar, ficaram calados a olharem uns para os outros, ninguém abria a boca, não sabiam o que dizer, até que a Sara correu para o Carlos e, beijando-o, disse que era muito importante conhecer e conviver com os pais

O silêncio nunca mais acabava, e ela chegou à conclusão que era uma intrusa indesejada, naquela casa, que tinha contribuído para a infelicidade daquela família, o melhor era sair, sem dizer nada, e ir para casa, pôr a mãe ao corrente do que tinha acontecido

O Miguel perguntou ao pai por que razão não tinha dito que tinha uma filha. O pai respondeu-lhe que também não sabia, e se não se tivesse reencontrado com a Bárbara, nunca saberia que tinha uma filha

Explicou como tudo tinha acontecido, para ver se ele e a mãe, atendendo às circunstâncias, o perdoavam. Mas o filho disse-lhe que não o poderia perdoar, porque se tinha esquecido de que tinha uma namorada, grávida. Respondeu que não sabia que ela estava grávida e que tinha sido um precipitação, devida à situação em que a Bárbara se encontrava, e da qual, lhes pedia muitas desculpas e perdão

O filho continuava furioso, dizendo que não aceitava as desculpas, nem o perdoava

A mãe continuava calada, observando as expressões dos seus rostos, ouvindo com atenção a argumentação de cada um. Tinha decidido que o melhor seria falarem a sós, deixando para mais tarde uma conversa a três

O Carlos apelou ao bom coração do filho, pedindo que o perdoasse, porque ainda era cedo para o julgar, e muito novo para saber as voltas que a vida e o coração dão

O Miguel pediu autorização para ir para o quarto, dizendo que não estava em condições de continuar aquela conversa, porque estava como se tivesse sido atingido com uma bomba no coração.

Continua.

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publicado às 07:59

Amor & guerra (36)

por cheia, em 21.06.21

Amor & guerra (36)

Despois de dois anos, da entrega das Colónias, começou a longa marcha, para a entrada no clube dos ricos

Foi uma dura e longa caminhada. A 11/3/1977, as explicações das razões do pedido de adesão à CEE, a 28, do mesmo mês, foi pedida a adesão

A 19/5/1978, a Comissão Europeia pronuncia-se a favor da adesão. Mais de dois anos e meio depois, a 18/12/1980, foi aprovado o acordo, sob forma de Cartas entre a CEE e República Portuguesa, relativo à criação de uma ajuda de pré-adesão a favor de Portugal, de 100 milhões de ecus para projetos ou programas de melhoramentos das estruturas industriais, modernização dos setores agrícola e das pescas e desenvolvimento de infraestruturas

Uma ajuda que não evitou que em 1983, tivéssemos de ir, pela segunda vez, bater à porta do FMI

A 18/12/1984, um segundo acordo de pré-adesão. Mais 50 milhões de ecus para as estruturas dos setores agrícola e pescas

Meio ano depois, a 11/6/1985, o Conselho decide que, o Reino de Espanha e a República  Portuguesa, podem tornar-se membros da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço.

Na mesma data aceitou a admissão na Comunidade Económica Europeia, e na Comunidade Europeia da Energia Atómica

No dia seguinte, em Lisboa, nos Jerónimos, foi assinado o tratado de adesão da República Portuguesa à CEE e à CEEA

 

 A Bárbara, vendo que tinham sobrado muitos francos franceses, decidiu ir ao Banco, vendê-los. Entrou no Banco, dirigiu-se ao balcão e vendeu os francos franceses. Quando ia a sair, encarou com o Carlos. Para confirmar, não fosse outra pessoa muito parecida, perguntou-lhe se se chamava Carlos, se tinha estado em Angola em 1961, até que ele a reconheceu, e lhe perguntou se era a Bárbara. Confirmou que era a Bárbara e que precisava muito de falar com ele. O Carlos pediu-lhe se podia esperar, no jardim ali perto, que estava quase a sair e iria ter com ela

Quando o Carlos chegou, confrontou-o com o facto de a ter abandonado, sem que tivesse, ao menos, escrito uma carta, para saber como estava

Ele tentou defender-se, dizendo que a Companhia tinha recebido ordens para sair, nessa noite, daquela Vila, e ir mais para Norte. Que ao fim de algum tempo foi ferido, em combate. Teve de ser evacuado para a Metrópole, e lhe tinham amputado a perna esquerda, abaixo do joelho

A Bárbara lamentou que tivesse sido amputado, mas que nada disso serviria de desculpa para não a ter procurado. Que ele nunca conseguiria imaginar o que ela tinha sofrido, durante todos aqueles anos, sem saber se estava vivo ou morto

Que tinha procedido como alguns animais irracionais, que, depois de cobrirem as fêmeas, nunca mais se importam se ficaram ou não prenhas

Perguntou-lhe se alguma vez tinha imaginado o que era criar uma filha, sozinha, que não se cansava de lhe perguntar pelo pai

Quando a Bárbara falou em filha, o Carlos estremeceu, mudou de cor, perguntou-lhe se a filha estava bem e se tinha com ela, alguma fotografia, que gostava de a ver

A Bárbara abriu a carteira e mostrou-lhe uma fotografia, recente, da filha

Ele disse que era linda e que já a conhecia, não sabia é que era filha dele

A Bárbara ficou admirada por ele já a conhecer, e perguntou-lhe de onde é que a conhecia

Respondeu-lhe que era a amiga do filho: o Miguel. Foi a vez de ela mudar de cor e dizer, que ainda, por cima, ele era o marido da sua melhor amiga: a Miquelina. Com tanta gente em Lisboa, tinha de travar amizade com a mulher do homem, que a tinha abandonado, sem querer saber se estava grávida ou não. Perguntou-lhe a quantas é que tinha feito o mesmo, em Angola

Respondeu-lhe que não tinha tido relações sexuais com mais nenhuma mulher, em Angola

A Bárbara continuava furiosa e disse-lhe, que fosse como fosse, o que lhe tinha feito não se fazia a ninguém. Depois de ter tido tanto trabalho para a convencer a sair daquela cave, de a ter devolvido à vida, de a ter engravidado, a tenha deixado, desaparecendo como o fumo

O Carlos voltou a dizer que a culpa não tinha sido só dele, que tinha sido da guerra, e até dela, que não se tinha opostos a que tivessem relações sexuais

Ela respondeu-lhe que naquelas circunstâncias dependia de quem lhe desse carinho, companhia, de tudo o que conseguisse fazê-la voltar à vida

Antes de se despedirem, o Carlos pediu-lhe para não dizer nada a ninguém, enquanto ele não dissesse à família o que tinha acontecido, porque pretendia fazê-lo, quando estivessem, os quatro, reunidos.

Continua.

 

 

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publicado às 07:48

Amor & guerra (35)

por cheia, em 18.06.21

Amor & guerra (35)

O João queria que fossem passar a lua-de-mel a Paris. A Bárbara estava com receio de deixar a filha, sozinha, nunca se tinha separado dela

Mas, a Sara lembrou-lhe que já era uma mulher, que fossem e se divertissem, porque ela ficava muito bem, e seria uma boa oportunidade para mostrar que já sabia voar, pronta para, quando se proporcionasse, abandonar o ninho

A Miquelina foi chamada para operação. Todos estavam com receio da operação, como acontece em todas as operações. Os médicos tinham decidido tirar-lhe o peito, porque era o mais seguro, para que o tumor fosse totalmente removido

A Bárbara e o João voaram para Paris, para uma lua-de-mel de sonho. Estavam encantadas com a cidade luz. Nos museus, verificaram a existência de muitas peças de arte, trazidas do continente africano, o que era, uma novidade, para eles

Não se cansavam de calcorrear a cidade, na tentativa de conseguirem ver todas as grandes atrações, da mais importante cidade, que visitavam, desde que tinham chegado à Europa

A Sara aproveitou a ausência da mãe, para convidar o Miguel a almoçar na casa dela. Queria provar que já sabia cozinhar, que para além de ser uma boa estudante, também estava preparada para ser uma boa dona de casa

O Miguel estava indeciso, se aceitava ou não, tinha receio que os pais dele e a mãe dela não gostassem da ideia. Mas, a Sara convenceu-o, dizendo-lhe que se se portassem como pessoas adultas e responsáveis, não teriam nada a dizer

A Bárbara, mal chegou de Paris, foi visitar a Miquelina, que já se encontrava em casa, estava bem-disposta e muito confiante na recuperação, porque os médicos tinham conseguido remover a totalidade do tumor. Falaram sobre a lua-de-mel e a linda cidade de Paris, que a Bárbara não se cansou de elogiar, dizendo à amiga, que era ótima para namorar

Estavam muito orgulhosas da Sara e do Miguel, por o almoço ter corrido muito bem, mostrando que eram responsáveis e que estavam em condições de abandonarem o ninho, sabendo bater as asas

A Bárbara contou à amiga o quanto tinha gostado da viagem de lua-de-mel, da felicidade de estar com o João, de como a sua vida estava, de novo, a tomar um bom rumo. Com a filha criada, era tempo de gozar a vida, conhecer Portugal e o mundo.

Continua.

 

 

 

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publicado às 07:51

Amor & guerra (34)

por cheia, em 17.06.21

Amor & guerra (34)

A Sara e o Miguel terminaram o Liceu, escolheram o mesmo curso e o mesmo estabelecimento de Ensino Superior: O Instituto Superior Técnico

No furor dos seus verdes dezoito anos cabiam todos os sonhos, todas as ambições, uma idade em que nada para os corações, no amor, nas emoções, nas vastas ilusões

O João voltou a visitar a Bárbara, levou-lhe mais um lindo ramo de rosas, belas, amarelas

Quando ela aceitou as rosas, ele abraçou-a e beijaram-se, disse-lhe ao ouvido: ”casas comigo?”

Toda ela estremeceu, sorrio e floriu, fê-lo esperar mais uns minutos, por fim, disse: “Sim”

Ficaram, ali, naquele enlevo, que nem deram por o tempo passar, só a chegada, da Sara, interrompeu aquele encantamento

Depois de a cumprimentarem, deram-lhe a notícia de que estavam noivos, ficou muito contente por ver a mãe, novamente, feliz, dizendo-lhe que já tinha perdido muito tempo Deu-lhes os parabéns, desejando que fossem muito felizes

Para comemorar, a Bárbara disse-lhes que ia fazer um jantar especial, o que fez com que a festa se prolongasse pela noite dentro. Como já era muito tarde, a Bárbara disse ao João, que podia ficar lá em casa, e ele aceitou

No dia seguinte, o João convidou-a para irem visitar os pais dele, a fim de os informarem sobre o seu noivado

Os pais dele ficaram muito contentes com a visita e a notícia. Há muito que esperavam que o filho desse aquele passo. Gostavam muito da Bárbara. Mas, infelizmente, a trágica morte do Firmino, tinha posto fim aos felizes anos, na companhia da Bárbara

Agora, esperavam que o João fosse tão feliz como o irmão, mas por muito mais tempo, com saúde e sem contratempos, na companhia da Bárbara, de que quem tanto gostavam, desejando que lhes dessem uma neta ou um neto, o que não foi possível com o Firmino  

A Miquelina continuava a lutar contra o cancro. Já tinha feito todos os exames, para se submeter à cirurgia, que os médicos decidiram ser a melhor maneira de o conseguir vencer

Estava otimista e tinha a certeza de que tudo iria correr bem, o que ajudava e animava quem a rodeava, e até os profissionais de saúde se sentiam contagiados pela sua boa disposição

A Bárbara estava radiante na companhia do seu novo companheiro. Só a doença da amiga lhe toldava a alegria

Foi visitá-la, antes que fosse internada para ser operada. Ficou muito animada por a ver tão determinada e segura de que tudo iria correr bem

Aproveitou para a pôr ao corrente dos últimos acontecimentos, dizendo-lhe que o ex-cunhado a tinha pedido em casamento, e que estava muito feliz por ter um companheiro

Também falaram do facto da Sara e do Miguel andarem no mesmo estabelecimento de ensino e no mesmo curso.

 

Continua.

 

 

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publicado às 07:10

Amor & guerra (33)

por cheia, em 14.06.21

Amor & Guerra (33)

A Sara notou que o Miguel andava muito triste, questionou-o sobre o que se passava, e ele informou-a da doença da mãe. A notícia deixou-a muito perturbada, mas fez o possível para o animar, dizendo-lhe que tinha de acreditar na ciência, porque o cancro já tinha cura

Quando a mãe chegou do trabalho, contou-lhe a triste notícia de que a Miquelina tinha um cancro numa das mamas

Também a Bárbara ficou com muita pena da Miquelina, e disse à filha, que no dia seguinte iria visitar a Miquelina, para lhe dar apoio

A Bárbara estava muito grata à Miquelina por a ter ajudado a acabar com a ansiedade em relação ao Liceu para onde a filha foi estudar. Desde o dia em que a Miquelina lhe perguntou se a poderia ajudar, que a considerava uma amiga, o que era muito importante para quem se sentia desenraizada, como era o caso da Bárbara, que não tinha ninguém em Portugal

No dia seguinte, foi ao Liceu falar com a Miquelina. Disse-lhe que podia contar com ela, para vencer a doença que a atormentava. Estava disponível para a ajudar em tudo o que precisasse, desde que estivesse ao seu alcance

A Miquelina ficou muito sensibilizada com a atitude da Bárbara, agradeceu-lhe o apoio, dizendo que seria muito importante a ajuda de todos, para vencer o cancro 

O irmão do Firmino, o João queria namorar com a ex-cunhada, mas ela insistia em que só depois de encontrar o Carlos, para o informar de que tinha uma filha, é que colocaria uma pedra sobre esse relacionamento

Mas, ele não desistia. Foi, mais um vez, visitá-la, com o pretexto de a informar, que em breve lhe pagaria o resto do dinheiro, que ela lhe tinha emprestado, para montar o negócio

Levou-lhe um bonito ramo de rosas, com a seguinte dedicatória: “ Para a mais bonita Rosa, todas as rosas”

Desta vez, a visita, do João, tocou-a de maneira diferente, pareceu-lhe mais atraente, não conseguiu esconder que estava apaixonada, mentalmente queria o esconder, mas o corpo denunciava-a, e ele percebeu a contradição entre a resposta do corpo e a das palavras mal disfarçadas

Para pôr fim à atrapalhação, pediu-lhe que esperasse mais uns dias. A resposta do João foi um enorme sorriso, por que percebeu que a decisão estava para breve, e de certeza que seria positiva, porque o corpo já tinha dito sim

Quando se beijaram, na despedida, o corpo dela estremeceu, e ela decidiu que iria pôr fim aquele sofrimento. Tinha-se acabado o tempo de procurar o Carlos

Quando voltasse a ver o João, aceitaria o seu pedido, tivesse ou não encontrado o Carlos, e oxalá, fosse de casamento, já não valia a pena perderem tempo com namoros, conheciam-se do tempo em que, em Lunda, todos viviam na casa dos pais dele

Quando a filha entrou em casa, notou que a mãe estava feliz, preguntou-lhe a que se devia tanta alegria. A mãe respondeu-lhe, sem rodeios, que tinha tido a visita do João, mostrando-lhe o bonito ramo de rosas e a dedicatória

A Sara beijou-a e sorriu, mostrando que concordava com o namoro.

Continua.

 

 

 

       

 

 

 

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publicado às 07:28

Amor & guerra (32)

por cheia, em 11.06.21

Amor & guerra (32)

A Miquelina detetou um caroço numa mama, foi ao médico, fez análises, e os resultados não podiam ser piores: tinha um cancro maligno

Ela e o Carlos ficaram petrificados com a revelação dos exames. Não queriam que o Miguel soubesse. Mas o segredo não durou muito tempo, porque o semblante deles não conseguia disfarçar o que os atormentava. Ao fim de muito questionados, tiveram de dizer, ao Miguel, o que os preocupava

O Miguel tentou animar a mãe, dizendo-lhe que já havia cura para o cancro. Mas nada a animava, aquela notícia era como se a tivessem condenado à morte

Logo agora, é que tinha de lhe aparece aquilo, a um ano do filho ir para a Universidade, tanto que queria ver o filho chegar a engenheiro

São daquelas notícias que mexem com toda a família, ninguém consegue ficar indiferente ao diagnóstico de que tem um cancro.

A Sara estava com receio que, quando chegasse a resposta do Ministério do Exército, a mãe descobrisse que andava a procurar o pai, mas como chegava a casa, antes da mãe, tinha a possibilidade de ir ver o correio e receber a resposta, sem que mãe soubesse

Todas as tardes, quando chegava a casa, ia ver a caixa do correio, até que chegou a resposta do Ministério do Exército, que dizia não a poderem ajudar, que tentasse obter mais informações, para poderem procurar o que pretendia

Nada a demovia, ia continuar a procurar encontrar o pai, o próximo passo seria conseguir obter a lista dos militares, que viajaram no primeiro barco, que chegou a Luanda, depois do massacre, que deu início à guerra, em 1961

Muitas vezes interrogava-se sobre a quantidade de filhas e de filhos que os militares deixavam, por onde passavam, sem se preocuparem com o seu futuro. Às mães cabe carrega-los no seu ventre nove meses, pari-los, criá-los e encaminhá-los, tudo fazendo para que sejam felizes    

Passados alguns dias de aulas, a Sara perguntou, a uma colega, quem era a rececionista Miquelina, dirigiu-se à receção e apresentou-se, dizendo que era a Sara, a filha da Bárbara, que tinha estado a falar com ela. A Miquelina disse-lhe que tinha muito prazer em conhecê-la, chamou o filho e apresentou-lho

Quando chegou a casa, disse à mãe, que tinha ido falar com a Senhora Miquelina, e que ela lhe tinha apresentado o filho, que era muito bonito e simpático, e que se  chamava Miguel

A Sara e o Miguel tornaram-se muito amigos. Para ela foi muito bom, porque foi mais fácil a sua integração, passando a integrar o grupo de amigos do Miguel, deixando de andar sozinha, como aconteceu nos primeiros dias, enquanto não foi falar com a Miquelina

Estava encantada com a nova escola. Os amigos, assim que souberam que tinha vindo de Angola, não paravam de lhe fazerem perguntas sobre a antiga colónia e sobre a guerra, tornando-se a mascote do grupo

O Miguel, quando soube da doença da mãe, passou a andar muito triste, quando não estava na sua presença, junto dela, tentava manter-se  alegre e confiante na cura do cancro.

Continua

 

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publicado às 07:52

Amor & guerra (31 )

por cheia, em 10.06.21

Amor & Guerra (31)

Com o regresso às aulas, a Sara estava ansiosa por saber como era a sua nova escola, não tinha amigas, nem amigos, não conhecia ninguém, só lhe restava a consolação de faltar apenas um ano, para começar a frequentar uma instituição de ensino superior

A mãe disse-lhe que a acompanhava, se ela quisesse, mas a Sara disse-lhe que não, porque isso era motivo para os colegas gozarem com ela, Já não era nenhuma criança!

A mãe calhou a passar pela escola, para onde ia a Sara, parou junto à receção, a observar o local, o edifício, para onde iria a sua menina, a sua única companhia

Uma funcionária, vendo-a tão absorta, perguntou-lhe se queria alguma informação

A Bárbara contou-lhe o que se passava: tinha vindo de Angola, com a filha, que iria para aquela escola, não conheciam ninguém em Portugal

A Miquelina disse-lhe que podia estar descansada, que já trabalhava ali há muitos anos, que o seu filho também ia para o décimo segundo ano, e se ela quisesse, que lho apresentava, para ela, melhor, se integrar

A Bárbara agradeceu-lhe, dizendo que iria dizer à Sara, para a contatar

Mesmo não precisando de trabalhar, procurou um emprego para não estar sozinha, enquanto a filha estava na escola

Foi trabalhar para uma joalharia, na Avenida da Liberdade, em Lisboa, gostava do contato com os clientes, de vender e comprar, porque isso, era o que tinha, sempre, feito

Ambas procuravam o mesmo homem: o Carlos, mas sem que o dissessem, faziam-no em completo segredo, sem deixarem transparecer o que andavam a fazer

A Sara já tinha questionado a mãe sobre o seu pai, já sabia quanto o assunto a entristecia, causando-lhe muita dor. Por isso, decidiu que iria continuar a procurá-lo, mas sem que a mãe soubesse 

Para procurar o pai, apenas sabia que se chamava Carlos: um soldado, que tinha estado, em Angola, no início da guerra, em 1961

Mesmo com tão poucos dados, não deixou de escrever para o Ministério do Exército, contando a sua história, pedindo ajuda, para que conseguisse conhecer o pai

Tinha poucas esperanças de que a pudessem ajudar, mas iria fazer tudo o que estivesse ao seu alcance. Todos os que se chamassem Carlos, que tivessem sido soldados, e tivessem estado na sua terra, no início da guerra, tinham de ser inquiridos, até encontrar o seu pai

A Bárbara também não sabia como fazer, para encontrar o Carlos. Mas tinha uma vaga esperança de o encontrar numa rua de Lisboa, ou em um qualquer estabelecimento  

O Miguel, também, ia frequentar o último ano do ensino secundário: o décimo segundo ano. Já tinha decidido o que queria fazer. Ser engenheiro informático, e já sabia que iria para o Instituto Superior Técnico, Em Lisboa, porque tinha notas, que lhe permitiam escolher o curso e o estabelecimento de ensino que quisesse.

Continua.

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publicado às 07:56

Amor & guerra (30)

por cheia, em 07.06.21

Amor & Guerra (30)

A maior parte das pessoas chegou com a roupa que tinham no corpo. Sem eira nem beira, sem conhecerem ninguém, muitos nunca tinham estado em Portugal, foram dias muito dramáticos, para muita gente

Deambulavam pela cidade, sem rumo, no desespero de quem não consegue prever o futuro, descansavam nos bancos dos jardins, à espera da noite

Foi difícil acomodar tanta gente. Criaram o Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais (IARN)

Mobilizaram algumas unidades hoteleiras, nos distritos do Porto, Lisboa e Setúbal, para onde encaminharam as famílias

Apresentavam índices mais elevados de escolaridade que o resto do país

A pouco-e-pouco criaram negócios, empregaram-se, contribuíram para a dinamização de muitas localidades

Os que eram funcionários públicos e bancários foram integrados, os outros tiveram de se desenrascar. Para a integração dos bancários, muito contribuiu o fato da banca estar nacionalizada

Os pais e o irmão do Firmino, ao contrário dos que não sabiam para onde ir, mal desembarcaram, no aeroporto de Lisboa, apanharam um táxi para a casa da Bárbara, onde forma muito bem recebidos, e ficaram até alugarem uma casa

Voltavam a estar todos juntos, o que, não fora a perda do Firmino e terem sido forçados a deixarem a sua terra, poderia ter sido motivo para estarem muito felizes

A Bárbara emprestou-lhes dinheiro para criarem um negócio, uma ajuda importante, que deu ótimos resultados, uma vez que, em poucos anos, se tornou numa grande empresa, dando trabalho a dezenas de trabalhadores

Depois da euforia de 1974, dos bons aumentos, para alguns, em 1975, da aprovação da Constituição, em 1976, das primeiras eleições livres de 1977, chegámos à banca rota

Pela primeira vez, em 1977, fomos forçados a pedir ajuda ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Tomamos-lhe o gosto, não queremos outra coisa, seguiram-se 1983 e 2011

Todos os dias, de cesta numa mão e a outra estendida, vamos aos mercados pedir euros emprestados

A Bárbara e a Sara continuavam a descobrir Lisboa e os arredores. Foram a uma casa de fados, ouviram cantar o fado e ficaram encantadas. Depois foram, ao Parque Mayer, ver um a revista à portuguesa, não se cansavam de, a cidade, percorrer

Viajaram de comboio a Cascais e Sintra. Visitaram o Palácio Nacional de Sintra, o Castelo dos Mouros, o Palácio Nacional da Pena, o Convento dos Capuchos e o Parque e Palácio de Monserrate. Também não quisera deixar de ir ao ponto mais ocidental da Europa: O Cabo da Roca

A seguir decidiram ir a Coimbra, que a Bárbara tanto gostava de conhecer, devido à sua Universidade, onde desejou estudar. Mas, os pais nunca permitiram que saísse de Angola

Para ela, Coimbra tinha muito encanto, mesmo que nunca lá tivesse estado, bastava o fado de Coimbra e as serenatas, que costumava ouvir na rádio

Parecia querer entusiasmar a filha, para que fosse estudar para a Universidade de Coimbra

Por vezes, alguns pais colocam nos ombros dos filhos os sonhos que não conseguiram realizar.

Continua.

   

 

 

 

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publicado às 07:03

Amor & guerra (29)

por cheia, em 06.06.21

Amor & guerra (29)

A Bárbara e a Sara tinham, finalmente, deixado Angola. Viajaram para Lisboa, na Europa

Compraram um andar, nas avenidas novas. Estavam a adaptar-se muito bem à nova vida, mas continuavam muito tristes, por terem perdido o Firmino

Assim que compraram o andar, escreveram aos pais do Firmino, dizendo-lhes que tinham feito boa viagem e que tinham muitas saudades deles

Se um dia necessitassem, teriam uma casa ao seu dispor, só precisavam de tomarem nota da morada

A 24 de Abril de 1975, um ano depois da revolução, realizaram-se as primeiras eleições livres, para a Assembleia Constituinte, foram as mais concorridas de sempre

O golpe de 25 de novembro de 1975, onde se perderam quatro vidas, terá sido para mudar o rumo dos trabalhos dos deputados, na Assembleia da República, para que elaborassem uma Constituição mais à esquerda 

Um ano depois, a 2 de Abril de 1976, foi aprovada a Constituição, por todos o Partidos, com exceção do CDS.

A Bárbara e a Sara estavam encantadas com Lisboa, parecia que queriam descobrir todos os seus encantos, num dia

Deixaram Luanda, depois do ano letivo ter terminado. A Sara já se tinha matriculado na escola, que iria frequentar, em Lisboa

Como tinham uma boa situação económica, decidiram aproveitar as férias escolares, para descobrirem, juntas, Portugal

Começaram pelo Castelo de São Jorge, onde ficaram encantadas com a vista sobre Lisboa, de seguida apanharam um táxi para a Praça do Comércio, para além dos prédios antigos, não acharam que fosse nada de especial: estava repleta de carros estacionados

Com o mapa da cidade nas mãos, queriam percorre-la de lés-a-lés, seguiram junto ao rio, mas tiveram de deixa-lo, porque queriam subir o elevador da Bica, ver o Bairro Alto, descer o elevador da Glória, não faltava que ver!

O Carlos, devido ao seu bom desempenho, como telefonista, foi convidado para fazer um curso de formação, para rececionista, a fim de estar preparado para informar os clientes, onde se dirigirem para tratarem dos diversos assuntos

Ele e a Mequilina estavam muito orgulhosos do filho, que estava sempre no quadro de honra da escola, fazendo com que a mãe, que trabalhava na escola, estivesse constantemente a ser felicitada pelas suas colegas e pelos professores

Em Angola, à medida que a data da independência se aproximava, a luta pelo poder aumentava, dando origem a mais violência, fazendo com que muitos decidissem que não podiam continuar em Angola.

Os pais e o irmão do Firmino já estavam arrependidos de não terem aceitado o convite da Bárbara, para a acompanharem, quando decidiu ir com a filha, para Lisboa

Acabaram por decidir, à última hora, também deixar Angola. Deixaram para trás tudo o que tinham, foram para o aeroporto, onde estiveram três dias, antes que conseguissem um voo, para Lisboa

Foi precisa uma gigantesca operação para conseguir trazer para Portugal, todos os que não queriam continuar em Angola. Foi uma ponte aérea, que durou mais de 80 dias, a uma média de 4.000 pessoas por dia.  

 

Continua.

 

 

 

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